Mais de 100 crianças entre 5 e 10 anos treinam nas quadras da franquia no  Country Clube
Mais de 100 crianças entre 5 e 10 anos treinam nas quadras da franquia no Country Clube | Foto: Gustavo Carneiro



As comemorações dos 20 anos do primeiro título de Gustavo Kuerten em Roland Garros servem para relembrar um dos grandes momentos do esporte brasileiro e também mostrar como o País aproveitou o legado deixado pelo maior tenista da sua história.
O tênis brasileiro subiria de patamar após o dia 8 de junho de 1997, quando o ainda desconhecido Kuerten, apenas o 66º colocado no ranking mundial, surpreendia a todos ao vencer o espanhol Sergi Brugera na quadra principal Philippe Chartrier. Nascia ali um caso de amor entre o brasileiro e o Grand Slam de Paris. Guga voltaria a vencer Roland Garros ainda em 2000 e 2001.
Com o nome gravado no Hall da Fama da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), o brasileiro será homenageado neste domingo (11) pelos organizadores do torneio de saibro mais famoso do mundo pelos 20 anos da conquista inédita, antes de final entre Rafael Nadal e Stan Wawrinka.
"O tênis do Brasil foi um antes e um outro depois do Guga. Mudou muita coisa de lá para cá, como a relação de ídolo que ele criou no País", afirma o tenista londrinense Marcelo Tebet Filho, que tinha um ano em 1997.
A "onda Guga" trouxe visibilidade para o tênis, o número de praticantes aumentou e o interesse das pessoas em conhecer a modalidade também. Porém, muitos entendem que o Brasil não aproveitou o reinado do manesinho de Floripa, que foi o número 1 do mundo, em 2000, para popularizar o esporte e criar novos campeões.
Para o técnico londrinense José Guilherme Danelon, surgiram bons nomes no tênis nacional logo após o primeiro título de Guga como Flávio Saretta e Alexandre Simoni, mas o governo não criou projetos de massificação e popularização do esporte, deixando de produzir em larga escala novos ídolos. "Outros países aproveitaram melhor momentos semelhantes. No Brasil, o tênis continua sendo um esporte elitizado, pois não temos quadras públicas e o material continua caro", avalia.
Franqueado da Escolinha Guga em Londrina, Danelon cita o exemplo do Paraná, segunda força do tênis nacional, e que também não tem espaços públicos. "Londrina não tem nenhum. Em Curitiba, alguns, mas ainda é um número insignificante. E nos poucos lugares que existem quadras públicas, não há programa de desenvolvimento".
Atualmente, o Brasil tem três tenistas no top 100 da ATP. Thomaz Bellucci (61º), Rogério Silva (79º) e Thiago Monteiro (95º). "Continuamos revelando bons juvenis. O grande problema é o espaço de transição para o profissional. Muitos param ou vão para o circuito universitário americano". Uma das novas promessas do tênis brasileiro é o paranaense Thiago Wilder, de Marechal Cândido Rondon (Oeste), que este ano chegou até as quartas de final no torneio de Roland Garros Juvenil.

EXEMPLO
O legado de Guga vai além do período em que esteve em quadra. A aposentadoria veio prematuramente em 2008, em razão de dores crônicas no quadril. Mesmo quem nunca viu o tenista jogar, tem o tenista como seu grande ídolo inspirador. "Meu pai sempre me fala dele como um grande campeão. Ele tem livros que contam a história de vários torneios que ele ganhou", revela Francisco Saquetin, 8 anos, e aluno da Escolinha Guga, em Londrina.
Para quem teve a chance de vê-lo jogar, a despedida foi dolorosa, mas o exemplo se eternizou. "Ele foi a grande influencia não só para mim, mas para todas as crianças. Chorei junto com ele quando anunciou a aposentadoria", revela Tebet Filho. "O que ele deixou foi o exemplo que é possível chegar. Que é possível jogar em alto nível e viver do tênis".

Londrina recebeu primeira escolinha
Londrina foi a primeira cidade do Brasil a receber uma franquia da Escolinha Guga, em janeiro de 2015. Atualmente, mais de 100 crianças entre 5 e 10 anos treinam nas quadras do Londrina Country Clube. Coincidentemente, foi em Londrina, que Guga ganhou o seu primeiro grande torneio, em 1990, quando tinha 14 anos. O Londrina Junior Cup chega em 2017 a sua 31ª edição – ocorre entre 1º e 8 de julho – e já tem confirmada a participação de tenistas de 19 países.
No ano passado, o ex-jogador voltou pela primeira vez a cidade e relembrou os passos daquela conquista inicial. "Ele lembrou de quando chegou na rodoviária, da quadra em que jogou a final. A presença dele entre as crianças foi algo extraordinário. E confirmou ainda mais o ídolo que ele é", frisa o técnico José Guilherme Danelon.
A Escolinha Guga tem hoje 40 unidades em dez estados e trabalha com uma metodologia única de ensino para a formação de novos atletas e capacitação de professores. O trabalho é realizado com quadras e bolas adaptadas e de cores diferentes (vermelha, laranja e verde) de acordo com a faixa etária e os treinamentos são planejados e medidos semanalmente.
"Todos os professores tem acesso a um portal onde tudo é testado antes de ir para a quadra. Os métodos são os mesmos e compartilhados pelos professores do projeto. Nada é feito no chute", revela Danelon. "Da nossa escolinha já teremos 26 meninos que vão disputar uma competição em Curitiba. Deste projeto certamente teremos bons frutos. Se o Brasil tivesse um projeto público como este quando o Guga foi campeão pela primeira vez, o tênis brasileiro estaria em outro patamar". (L.F.C.)

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