São Paulo - Para alegria de quem curte futebol, Ronaldinho Gaúcho está longe da fase final da carreira. Mesmo assim, atingiu estágio reservado só a ídolos consagrados o de ser reverenciado até por rivais. A prova irrefutável de que já se trata de astro acima de paixões clubísticas veio das arquibancadas do Estádio Santiago Bernabéu, em novembro, quando fãs do arquiinimigo Real Madrid o aplaudiram de pé, maravilhados com seus gols, dribles e passes, na vitória do Barcelona por 3 a 0.
''Ele tem tudo para ratificar, na Copa, o título de melhor do mundo'', reconheceu Deco, seu companheiro de time. ''Além disso, teve a sorte de chegar ao Barça em um momento em que a equipe voltava a ser forte.''
Deco tem razão, em parte. Ronaldinho desembarcou em Barcelona num período favorável. Mas sua contratação do Paris Saint-Germain, por soma equivalente a R$ 120 milhões, também contribuiu para o ressurgimento de um time que havia anos só assistia ao sucesso do Real. Craque e clube, afinal, se fortaleceram juntos.
A diretoria do Barcelona tem consciência da importância do brasileiro como fonte de renda e divulgação. Em função disso, o presidente Joan Laporta não perdeu sequer uma noite de sono, quando houve investida do Chelsea, robustecido pelos milhões do russo Roman Abramovich e com olho crescido para cima de Ronaldinho. O cartola catalão disse um definitivo não à abertura de negociações para eventual transferência. Não admitiu cedê-lo nem pelos R$ 580 milhões estipulados para rescisão. Negociante habilidoso, sabe que pode ganhar muito dinheiro além de prestígio e títulos ao manter o astro, que é garantia de estádios cheios onde quer que o Barça se apresente. Sem contar os contratos de patrocínio e merchandising.
Ronaldinho retribui com futebol de primeiríssima grandeza, ou seja, a forma que lhe é mais natural. Como se tivesse de referendar sua ligação estreita com o clube, quase semanalmente repete frases que se tornaram bordões. ''Quero fazer história no Barcelona'', diz aos quatro ventos. ''Sonhava em jogar aqui, para seguir os passos de meus ídolos Romário, Maradona, Rivaldo e Ronaldo'', admite. ''E é muito lindo ver como o público se diverte comigo.''
Ronaldinho virou superestrela nas duas últimas temporadas com direito a receber convite para virar personagem de histórias em quadrinhos. No fim de 2005, acertou contrato com Maurício de Souza, que em março pretende lançar no mercado gibis em que o craque fará parte da turma da Mônica, como já ocorreu com Senna e com Pelé.
Humildade Honraria inimaginável quatro anos atrás, época em que era coadjuvante importante no grupo que Felipão levou para o Mundial da Ásia. Naquela competição, as atenções se concentravam em Rivaldo e Ronaldo, os pontos de referência da equipe que se tornou pentacampeã. Ronaldinho teve bom desempenho o melhor, na vitória de virada por 2 a 1 sobre a Inglaterra, pelas quartas-de-final. No duelo em Hamamatsu, fez gol antológico, em cobrança de falta, mas minutos mais tarde recebeu cartão vermelho. Por bobeira, por falta estúpida.
Reação que hoje em dia não costuma ter se bem que, em uma ou outra partida do Barcelona, seja tentado a recaídas. Seguro, consciente de seu prestígio e talento, não se assusta com a responsabilidade de defender, dentro de alguns meses, os troféus que recebeu da Fifa como melhor do mundo. Nem parecem incomodar-lhe os elogios que partem de personagens como Beckenbauer, Pelé, Maradona, Platini, Zico e outros do mesmo calibre. A saída, clássica, é a da humildade. ''Fico feliz com isso'', costuma afirmar. ''É bom saber que gente de peso pensa isso de mim.''
Mas o melhor é saber que Ronaldinho Gaúcho continua jogando com alegria. Para sorte do Brasil. (Antero Greco/Agência Estado)

mockup