Garotas do apito driblam a desconfiança
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sábado, 02 de junho de 2007
Thiago Mossini<br> Reportagem Local 
Elas são bonitas, sensuais, vaidosas e mandam nos homens do pedaço. Quando entram em cena, nem os machões escapam de suas ordens. Porém, são encaradas com olhos de desconfiança pela escolha que fizeram.
Paula Barros, 26 anos, personal trainer, Gisele Oliveira, 21, recepcionista, e Renata Guimarães, 30, também personal trainer, não ouviram os conselhos das respectivas mães e resolveram ingressar numa carreira dominada por homens e pelo machismo. As três londrinenses completam no mês que vem um ano como árbitras da Federação Paranaense de Futebol (FPF) e esperam dar suas contribuições para que chegue ao fim o mito de que mulher não pode apitar futebol.
As três resolveram aposentar as sapatilhas de balé e calçaram as chuteiras, pegaram o apito, os cartões e a bandeira, sem deixar o batom de lado, pelo mesmo motivo: a paixão pelo futebol, fato raro no universo feminino. ''Sempre gostei de futebol. Já tentei jogar, mas não deu certo. Um dia, o Afonso (Vítor de Oliveira, presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Paranaense de Futebol), deu uma palestra na minha sala na faculdade e fiquei apaixonada. Resolvi fazer o curso, em 2003'', contou Paula, que teve que abandonar a vida de artilheira da rua da casa dela para se dedicar à arbitragem.
As três entraram no meio do ano passado para o quadro da FPF, mas estão muito longe de trabalhar em um jogo profissional. Por enquanto, trabalham como auxiliares, mas podem optar por serem árbitras, como ocorre com Renata, quando as três são escaladas para o mesmo jogo. E ai de quem ousar falar que são 'bandeirinhas'. ''Bandeira é o nosso instrumento de trabalho'', já vai avisando Paula.
Acostumadas a levantar suas bandeiras nas competições amadoras, elas contam com orgulho dos dois principais jogos em que trabalharam. ''Ah, um foi com o Héber (Roberto Lopes, árbitro da Fifa)'', disparou Paula. ''Era partida festiva, nem lembro quem jogou'', emendou Renata, confirmando que o londrinense do quadro da Fifa é o grande ídolo delas. ''Também fizemos a preliminar de Londrina e Adap, pelo Paranaense desse ano. Tinha bastante gente no estádio e foi bem legal'', completou Gisele, se referindo à partida entre os Masters do Tubarão e do Grêmio Maringá.
A alegria de poder bandeirar um jogo que não é de garotos ou amador, convive com a ansiedade de esperar uma chance de poder trabalhar num jogo profissional, o que provavelmente vai demorar ainda de dois a três anos para acontecer. Porém, elas garantem que não têm pressa e que sabem esperar o momento certo. ''Temos paciência para esperar uma chance. Somos persistentes'', disse Renata.
Se apitar uma Segundona do Paraná está longe de acontecer, chegar ao quadro da CBF então... ''A gente não tem uma expectativa de data para alcançar as metas. É muito relativo, mas que é o sonho de todas é'', afirmou Gisele. ''Chegar à CBF seria o sonho principal, à Fifa, então, nossa!'', completou Renata.
Elas se inspiram na top das auxiliares no Brasil, a paulista Ana Paula de Oliveira, 29, para seguirem na luta. ''Claro que sonho com a Fifa, mas não sou novinha. A Ana Paula, por exemplo, quando tinha 26 anos já era do quadro da Fifa. A minha perspectiva é de, daqui a dez anos, estar num patamar tranquilo no quadro da CBF'', projetou Paula, que não acha a paulista tão melhor do que as outras colegas de profissão. ''Gosto do trabalho dela, mas acho que aparece mais do que as outras''.
Por enquanto, vão administrando a ansiedade e os sonhos. Trabalhar em uma partida amadora já arranca arrepios das três. ''O coração dispara quando entro em campo'', revelou Gisele. ''Dispara desde quando toca o telefone para avisar que estou escalada'', complementou Paula.


