Existe sempre um homem à sombra de um craque de futebol. O País reverencia suas principais revelações Diegos, Robinhos e Kakás , mas esconde atrás da fama quem dedica a própria vida em prol do futebol brasileiro. Ser olheiro é ser muitas vezes um solitário, trabalhar sem ser notado, viajar e passar um bom tempo longe de casa. A estrada é um segundo lar.
A carreira, no entanto, corre riscos. Em busca de dinheiro fácil, aventureiros denigrem a profissão e colocam em perigo a vida de garotos que sonham ganhar a vida jogando futebol. Quem conhece tudo das artimanhas da vida de olheiro é o londrinense Aliomar Manzano, o Ticão, 55 anos, supervisor do Paraná Soccer Technical Center (PSTC). ''Infelizmente o que mais tem é picareta nesta profissão. Tem gente que nunca trabalhou com futebol na vida, que nem sabe o que é bola, e entrou nessa vida pegando procuração e prometendo horrores para pais de garotos. No fim não cumprem nada. A procuração está proibida. É só representante da Fifa que pode pedir procuração'', alerta.
A solução para acabar com estelionatários do mundo da bola parece bem longe de se tornar realidade. Ticão conhece como ninguém o lado ruim de sua profissão e admite que não sabe o que fazer. ''Isso é uma coisa que não sei como vai acabar. Para mim estas pessoas são todas lixo. Tentam se aproveitar de uma situação, mas nem sabem se o garoto será craque ou não. Isso quem sabe somos nós, que em um ou dois anos sabemos onde ele pode chegar. Muitos pegam dinheiro de pais para ganhar dinheiro fácil. Prometem, por exemplo, que vão levar para o Palmeiras, mas não conhecem ninguém lá'', ira-se.
No PSTC, há histórias de garotos que caíram no conto de farsantes. O sonho de se tornar um jogador profissional correu riscos de se materializar em um terrível pesadelo. ''Aqui temos exemplo disso. Gente que vem lá do Mato Grosso, pega mil reais do pai, e fala que vai levar o menino para o PSTC. No fim da história, o garoto chega aqui e fala que pagou para jogar, mas é tudo mentira, nós não cobramos nada''.
O exterior também é um perigo iminente. Alguns ''olheiros'', geralmente bem vestidos, articulando como ninguém o discurso, percorrem todo o País em busca de novas revelações. Neste caso, o alvo é bem mais ambicioso: os dólares de um negócio globalizado. Adolescentes de 14 ou 15 anos, em média, pensam que o sonho de jogar no exterior pode ser antecipado, mas acabam frustados e explorados em clubes de pouca expressão, desconhecidos e que não cumprem obrigações básicas com o jogador.
''Como o pai não entende da lei, pensa que é só aquela pessoa que pode representar o filho dele, e não é. Volto a insistir no mesmo assunto: procuração não existe mais. Só gente da Fifa pode ser procurador. Isso devia acabar logo porque está prejudicando o futebol brasileiro. No PSTC, nosso presidente é o procurador do Kléberson, mas junto com um oficial da Fifa. Até hoje eles não tiraram um tostão do jogador, e o Kléberson nunca pagou comissão para ninguém aqui dentro. O clube teve lucro com a venda dele para o Manchester'', ponderou.
Os ''malandros'' ferem ainda a ética dos boleiros de uma forma mais vergonhosa. Não é raro encontrar gente que trabalha para um clube com carteira assinada e tudo e, nos bastidores, de forma leviana, acaba traindo a confiança de quem o contratou. ''Por isso que nesta profissão é preciso honestidade. Não adianta nada trabalhar no PSTC e desviar jogador pra outro clube. Tem muita gente que faz isso. Ganha um salário de um clube, mas por baixo dos panos, leva jogador pra outro. Em 80% dos clubes brasileiros têm isso aí. Então, o clube investe em pessoas erradas. O olheiro vai para uma peneirada, um teste qualquer, descobre o garoto e o negocia com outro clube'', desabafa Ticão.
O lado sombrio do futebol, que faz questão de continuar escondido dos holofotes da mídia, não tira, no entanto, a magia que a vida de olheiro pode proporcionar. Ticão ama o que faz. ''Não sei fazer outra coisa na vida. Se tivesse que abrir um boteco, não sei nem vender pinga'', ilustra.
Os olhos mágicos de Ticão passam incólumes pelo desgaste do tempo. Ao contrário, parecem se aperfeiçoar. Responsável pelo surgimento de grandes craques Éverton, Márcio Alcântara, Adalberto e Élber (nos tempos de Londrina), Ronaldo ''Fenômeno'', Beletti e Ricardinho (época em que trabalhou no Cruzeiro), além de Kléberson, Dagoberto e Fernandinho (os mais recentes) , este homem é um predestinado a salvar craques do anomimato, embora a modéstia o impeça de pensar desta forma.
''Com 27 anos de profissão, a vida me ensinou muito. Mas acho que tenho alguma coisa nata dentro de mim. Quem trabalha com seriedade e honestidade, Deus ajuda. E taí... a seleção pentacampeã tem três jogadores formados por mim e por minha equipe de trabalho, o Kléberson, o Ronaldo e o Belletti. Então, acho que dentro de uma seleção com 22 jogadores, o fato de três deles terem trabalharam comigo é um motivo de orgulho. Mas aquilo que sempre frisei, não sou eu quem revela, quem faz todo trabalho é a comissão técnica que trabalha junto com a gente'', afirma.
Afinal, existe uma fórmula de revelar jogador? Ticão diz que tem. A rotina de um olheiro, à primeira vista, pode parecer fácil: viagens, hotéis, restaurantes. Mas a imagem é enganosa. Ticão afirma que é preciso muito trabalho e paciência. ''Tem que procurar, tem que ser garimpeiro. Você tem que viajar e tem aquele velho ditado, aonde tem cascalho tem ouro. Então você tem que rodar, rodar... é um trabalho incansável. É importante também sempre ouvir os amigos, ouvir as pessoas que trazem os garotos e sempre acreditar nelas. Às vezes você pensa que elas não enxergam, mas muitas vezes estes garotos são craques'', ensina. ''Não pode ter preguiça e aquilo que sempre friso: o trabalho tem que ser honesto, não adianta fazer um trabalho e começar a desviar jogador''.

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