Salvador - Dunga é monolítico. Nem a alegria da campanha brasileira nas Eliminatórias, que culminou com a vitória por 3 a 1 sobre a Argentina, no sábado, em Rosário, e a classificação para a Copa do Mundo da África do Sul fez o técnico mudar.
Na entrevista coletiva, ontem, oito horas e meia após a chegada da delegação a Salvador, ele entrou na sala de eventos do hotel onde a equipe está hospedada. Não achou nem graça no fato de os diferentes espaços no resort terem nomes de obras do escritor baiano Jorge Amado. Onde Dunga falou era Tenda dos Milagres. ''Eu não acredito em milagres. Acredito em trabalho'', cortou o treinador, sem nenhum senso de humor.
Aparentemente obcecado com seus críticos, Dunga passou toda a entrevista, que durou pouco mais de 30 minutos, batendo e mandando recados. Não se sensibilizou nem com os números da seleção: melhor ataque (28 gols), melhor defesa (7 gols) e o artilheiro da competição na América do Sul: Luís Fabiano (9 gols).
''Após o jogo (em Rosário), ninguém deu parabéns pela classificação. A primeira pergunta foi dizendo que a Argentina jogou mal. Você faz bem em torcer pelo Chile. Eu queria que todos torcessem pelo Brasil'', disse Dunga, respondendo a um repórter chileno, insinuando que parte da imprensa prefere que a seleção brasileira perca.
Pelo menos na questão dos resultados, é difícil contestar o trabalho do treinador. Ele deixou para trás o grito de ''adeus, Dunga'' ouvido nos estádios após empates e apresentações ruins contra Argentina (no Mineirão) e Bolívia (no Engenhão). Está garantido na Copa do Mundo, onde vai ter a chance de ser apenas o terceiro profissional da história a conquistar o Mundial como jogador e técnico. Os outros foram Zagallo e Franz Beckenbauer, pela Alemanha.
''Você acha que a pressão vai diminuir agora? Acredita nisso?'', questionou os jornalistas. ''Se o Brasil levar 11 meninos de rua para jogar a Copa, vai entrar como favorita. Esse é o peso dessa camisa''.
Antes de entrar na sala da entrevista coletiva, Dunga recebeu de Nina Vieira, de 8 anos, um desenho de apoio à seleção. Não se furtou a mostrar os rabiscos da menina. Mas o sorriso só veio a pedidos. ''Apesar de muita gente dizer da minha cara feia, a criança não tem falsidade no coração. É verdadeira'', concluiu ele, reconhecendo depois não ser uma pessoa maleável e considerando isso uma virtude.
Proibido se acomodar
Durante a coletiva, Dunga alertou para a necessidade de os jogadores da seleção brasileira não se acomodarem diante do fato de o time já ter garantido a classificação à Copa. A partida da próxima quarta-feira contra o Chile, no estádio de Pituaçu, será uma ótima oportunidade para alguns jogadores convencerem Dunga de que podem ir ao Mundial. Diversos titulares estão suspensos ou contundidos e muitos reservas terão a oportunidade de jogar os 90 minutos.
''Os jogadores estão esperando uma oportunidade. Todos estão lutando por uma vaga na Copa do Mundo, temos que continuar no mesmo caminho. Quando a seleção entra em campo, tem que entrar para vencer e se superar com a vontade de entrar em campo'', ressaltou Dunga.

EM ROSÁRIO

Argentina 1

Andújar; Zanetti, Sebá, Otamendi e Heinze; Mascherano, Maxi Rodriguez (Aguero), Verón e Dátolo; Tevez (Diego Milito) e Messi. Técnico: Diego Maradona

Brasil 3

Júlio César; Maicon, Lúcio, Luisão e André Santos; Gilberto Silva, Felipe Melo, Elano (Daniel Alves) e Kaká; Robinho (Ramires) e Luís Fabiano (Adriano). Técnico: Dunga

Árbitro: Oscar Ruiz (Colômbia)
Estádio: Gigante de Arroyito
Gols: Luisão, aos 24, e Luís Fabiano, aos 30 minutos do 1º tempo; Dátolo, aos 19, e Luís Fabiano, aos 21 minutos do 2º tempo
Renda: R$ 2.210.000,00
Público: 40 mil pagantes

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