Dortmund - A maneira como Randy Abbey, porta-voz da Federação de Gana, comunicou o fim da entrevista do técnico Ratomir Dujkovic e de Sulley Muntari em Dortmund foi tão sugestiva quanto pretensiosa: ''Nos vemos nas quartas-de-final''.
Há 24 anos, o futebol profissional ganês não ergue um troféu. Na última vez, em 1982, ganhou a Copa Africana de Nações com uma vitória nos pênaltis sobre a Líbia, em Tripoli. Eliminar o Brasil e chegar às quartas-de-final de seu primeiro Mundial teria importância semelhante àquela conquista para uma geração que brilhou na década de 90 em Mundiais Sub-17 e Sub-21 sob a eterna desconfiança em relação à idade de seus jogadores.
''É uma partida histórica. Pela primeira vez estaremos enfrentando os campeões do mundo, defendendo o título, numa Copa'', disse Ratomir Dujkovic. ''Temos um psicólogo que trabalha o lado mental dos jogadores. Por mim, digo a eles que não tenham medo do Brasil, não fiquem olhando seus ídolos e tentem pará-los.''
Nas categorias de base, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Kaká enfrentaram Kuffour, Appiah, Muntari, Pimpong e Essien, que hoje cumprirá suspensão. Brasileiros e ganeses venceram, cada um, três dos seis confrontos. Carlos Alberto Parreira foi um dos precursores do processo de desenvolvimento do futebol em Gana, contribuindo para a formação de uma filosofia de jogo que renderia aos africanos o apelido de ''Brasileiros da África''. Orgulhosos pela referência, amanhã à tarde eles querem ser apenas os ''Black Stars''.
''Agora a influência é sérvia'', respondeu o sérvio-montenegrino Dujkovic, ao ser perguntado sobre a semelhança de estilos. ''Jogamos para ganhar. Se você apenas se defende contra o Brasil, toma um, dois ou até mais gols. Vamos fazer diferente, tentar marcar gols.''
Uma vitória levaria Gana a igualar os melhores africanos em Copas, Camarões e Senegal, que em 1990 e 2002, respectivamente, chegaram às quartas-de-final das Copas da Itália e da Ásia. Sobretudo, seria a ponte para um salto de qualidade no esporte do país.
''Derrotar o Brasil contribuiria decisivamente para o trabalho da Federação, que busca retardar a saída de nossos jovens para a Europa. Em Gana, o futebol ainda não é um grande negócio, mas após a Copa as coisas podem melhorar'', lembrou Robert Sackey, membro da Federação de Gana.
A desobrigação de vencer potencializa a auto-confiança de um time que, embora tenha feito apenas uma boa partida na Alemanha, contra a República Tcheca, acredita que pode surpreender os favoritos. As mensagens de apoio de toda a África continuam chegando, mas a pressão de jogar pelo continente ''a mãe de todas as partidas'' - como alguns ganeses vêm chamando o jogo - não parece mexer com os nervos de uma equipe que rejeita o estereótipo de ''indisciplinada taticamente'' de equipes africanas.
''O Brasil não é invencível, vamos fazer o nosso jogo e ver o que acontecerá'', avisou Muntari, que evitou comparar os confrontos nas categorias de base: ''No meu caso, foi há cinco anos, agora todos são mais experientes''.
Ainda que sua intenção seja manter a forma como o time costuma jogar, Ratomir Dujkovic vai escalar uma equipe diferente da que venceu os Estados Unidos. O lateral esquerdo Mohamed sentiu um problema no treino de domingo e é dúvida. Eric Addo substituirá Michael Essien.
No meio, Muntari volta, mas Draman deve ser mantido no lugar de Boateng. Na frente, Asamoah Gyan também tem presença confirmada, ao contrário de Matthew Amoah, que pode perder a posição para Razak Pimpong. E nas arquibancadas, Dujkovic espera ter o décimo segundo jogador: ''É claro que esperamos que todos os torcedores, alemães ou não, estejam do nosso lado. Ficaríamos muito agradecidos''.

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