FUTSAL FEMININO - Um mergulho na história
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de novembro de 2003
Guilherme Gouveia<br> Reportagem Local 
Em Londrina, a história do futsal feminino faz o leitor viajar ao início da década de 80. O País assistia a seu processo de redemocratização ouvindo Titãs, Paralamas do Sucesso, Lulu Santos; uma geração de músicos expoentes do rock nacional. E é nesta vida de efervescência juvenil que surgiram as primeiras equipes de futsal compostas exclusivamente de mulheres. Elas se dividiam em tarefas comuns para garotas prestes a descobrir a liberdade da vida universitária. Estudo, trabalho, barzinhos, repúblicas, nada escapava à rotina. Foi quando um grupo de meninas, nem todas universitárias, decidiu romper paradigmas da época e criar uma equipe de futsal. A história começava a ser escrita.
Quem lembra com detalhes de tudo é a professora de educação física Vanda Cristina Sanches, 40 anos, treinadora do Grêmio/Leite Líder, primeira equipe com estrutura profissional do Estado. A primeira e única motivação era reunir as amigas e quebrar o estresse do dia-a-dia com algumas horas de lazer. ''A gente só queria se divertir. Eram de 10 a 12 meninas, algumas estudantes de educação física, que se reuniam duas vezes por semana para jogar. Foi então que surgiu a idéia de criar uma equipe e disputar um torneio'', recorda Vanda, então aluna do curso de educação física da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
O Maquino surgiu em meados de 1983, menos de um ano após a ''inesquecível'' derrota brasileira para a Itália na Copa do Mundo na Espanha. ''A gente gostava muito de futebol, e a equipe mesmo bancava as despesas com quadras, uniformes e bolas''. Bem à sombra da geração de Douglas, Jackson e Vander, as primeiras celebridades do futsal masculino, a equipe começou a disputar torneios amadores. O primeiro citadino aconteceu em 83 com a participação de 10 equipes (número extra-oficial). Desde esta data, a Liga Londrinense de Futsal (LLF) já organizou 209 campeonatos, contando com o deste ano.
E foi somente na década seguinte que as competições ganharam um caráter profissional. Em 90, Contagem (MG) sediou o primeiro torneio nacional com a participação de 10 equipes. Em 92, a Confederação Brasileira de Futsal (CBFS) oficializou a modalidade e criou a 1Taça Brasil de Clubes. No mesmo ano, só que no segundo semestre, a Federação Paranaense organizou a 1Taça Paraná. A partir de então, o futsal feminino decolou rumo a sua consolidação no cenário esportivo do País. Já são 12 edições da Taça Brasil e o mesmo número de torneios estaduais (incluído o deste ano).
Aqui na cidade, a história do futsal se confunde com o time do Grêmio Londrinense, nove vezes campeão da Taça Paraná, sendo que cinco delas de forma consecutiva 93 a 99. Na avaliação de Vanda, o futsal feminino, tanto londrinense quanto brasileiro, divide-se em três fases. Nos anos 80, o esporte passou por um período recreativo, quando o que mais interessava era puramente a diversão. Eram também os anos em que a mulher assumia um papel mais ativo na sociedade derrubando preconceitos para exercer posições de liderança no mercado de trabalho. ''Tudo que a gente queria era jogar bola, e tinha ainda a questão de ganhar espaço na comunidade esportiva, a exemplo do que as mulheres estavam fazendo em outras áreas'', analisou.
Já na década seguinte, o futsal de ''saias'' viveu sua fase de consolidação, de dizer à opinião pública que veio sim para ficar. ''Despertamos mais o interesse de todo mundo. Começamos a organizar campeonatos oficiais e a evoluir também no rendimento dentro de quadra, seja na parte técnica ou tática''. Vanda aponta ainda outro benefício conquistado nesta época. ''Lá nos anos 80, a gente começava a jogar com 18 anos ou mais. Hoje, as meninas entram mais cedo no futsal, com 10, 11 anos, e olha que ainda é um pouco tarde. Mas já é o suficiente para perceber o crescimento dentro de quadra''.
Finalizando, os primeiros anos do século 21 despertaram o interesse dos patrocinadores. As equipes amadoras, que sobreviviam graças ao esforço das próprias jogadores, foram aos poucos ganhando apoio de clubes, empresas e do poder público. A equipe da Sabesp tornou-se a maior campeã da Taça Brasil com os investimentos da estatal paulista. No Paraná, o Grêmio conquistou sua hegemonia com a ajuda da Prefeitura de Londrina, via Lei de Incentivo ao Esporte Amador. ''Acho que vivemos agora a fase dos investimentos, mesmo que ainda sejam pequenos. O futsal feminino já tem uma história, tanto local, estadual, como nacional, e começando a aparecer no exterior do País'', analisou.
O futsal feminino ainda está bem longe de conquistar o espaço do masculino, que movimenta milhões de reais com a badalada Liga Nacional. Mas conquistou uma vitória significativa em sua curta trajetória. Pela primeira vez na história, o futsal feminino (o masculino também) será modalidade exibição nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro.


