Futebol tem novo público no País
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de agosto de 2013
Almir Leite e Leonardo Maia<br>Agência Estado 
São Paulo - Nas nove primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro, 20% dos jogos foram disputados em novas arenas, em sua maioria construídas ou reformadas para a Copa do Mundo de 2014. Nelas, a média de público foi de 28.879 pessoas por partida. Nos estádios antigos, não passou de 9.550. Os números verificados nos palcos modernos, no entanto, trazem uma confirmação: o perfil dos torcedores que vão aos jogos de futebol no Brasil está mudando. Os de menor poder aquisitivo estão dando lugar àqueles com maior poder de compra. E as famílias estão de volta.
Um dos fatores dessa mudança é o preço dos bilhetes, mais alto do que o cobrado nos estádios velhos. Os ingressos mais baratos custam normalmente entre R$ 50 e R$ 60, podendo chegar a R$ 100. "O preço do ingresso embute tudo o que a arena oferece. Entram na composição fatores como organização do jogo, conforto, serviços colocados à disposição do torcedor, custo operacional, qualidade do local, entre outros", diz o consultor de gestão esportiva da BDO, Pedro Daniel, autor de comparativo entre a afluência de público nos estádios novos e nos antigos neste início de Brasileirão. O trabalho constatou que o preço médio nas arenas modernas atingiu R$ 55,42. Nas outras, chegou a R$ 25,20.
Preços à parte, a curiosidade quanto às arenas e a promessa de melhores serviços - conforto, segurança, alimentação e higiene - andam chamando o público. Mas só quem pode pagar por esses benefícios as frequenta. "Está mudando o conceito. A ideia é mostrar que aquilo (a ida ao estádio) vale a pena. Não é apenas um jogo e, sim, um programa", explica Pedro Daniel.
Essa "elitização" traz desconforto em alguns setores. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, está preocupado e tenta convencer clubes e gestores dessas novas arenas a destinar parte dos ingressos a torcedores de menor poder aquisitivo. "É claro que os estádios mais sofisticados vão cobrar mais caro, mas a nossa ambição é que parte dos ingressos seja reservada para a população mais pobre", afirmou Rebelo. "Os clubes podem fazer o subsídio cruzado, com o ingresso mais caro subsidiando o mais barato."
Um clube já está fazendo isso, segundo o consultor Pedro Daniel: o Grêmio, que na sua nova arena mantém um setor popular, para o qual o ingresso pode ser comprado por R$ 20 (meia-entrada). "O Grêmio conseguiu contemplar todo tipo de público", conta.
Aldo Rebelo entende que a modernização dos estádios não pode implicar na exclusão da parcela mais pobre da população. "Isso tiraria um traço importante da consolidação do futebol como esporte mais popular do Brasil, que é o acesso da população pobre aos estádios", diz o ministro.
O diretor de marketing do Flamengo, Fred Luz, discorda dos que enxergam uma mudança no perfil do torcedor a partir do surgimento das novas arenas. "Creio até que há mais inclusão do que exclusão, porque o torcedor fanático sempre vai dar um jeito de ir ao estádio. E vejo que novas pessoas estão indo", explica
Sócio-torcedor
No atual quadro, uma alternativa para o torcedor pagar menos pelo ingresso é filiar-se aos programas de sócio-torcedor dos clubes. "Os clubes usam a política de aumentar o preço dos ingressos para forçar a adesão a seus programas de sócio-torcedor", afirma Aldo Rebelo.
Os clubes não negam a estratégia. "Precisamos aumentar a receita com o público do futebol para tentar formar melhores times", diz o diretor de marketing do Flamengo. O clube carioca, por exemplo, tem seis planos de sócio-torcedor, a preços entre R$ 39 e R$ 250, e hoje conta com pouco mais de 33.200 filiados - três mil se inscreveram após a marcação do jogo contra o Botafogo para o Maracanã.
O Flamengo é o responsável pelos melhores públicos em uma arena modernizada, o Mané Garrincha, em Brasília, que tem média de mais de 60 mil pessoas por jogo. "Para manter o público, melhorar a questão do conforto e do acesso é importante, mas não adianta fazer nada disso sem um bom time", pondera Fred Luz. Que o diga o Ceará. Capengando na Série B, não leva ninguém ao Castelão, tão moderno quanto o Mané Garrincha.


