A história do contrato que fez o Santos com Ricardo Oliveira é um despropósito. Além do salário, o atacante receberia um bônus por gol que marcasse. Dizem que esse tipo de acordo é comum, sobretudo, no futebol europeu. Trata-se de uma subversão do princípio da coletividade que rege o jogo.
O cartola que concede tal privilégio é tão insensato quanto o jogador que faz a exigência. Essa é uma das maneiras mais seguras de afundar uma equipe.
Nos bons tempos do grande Botafogo, Garrincha fez dois milionários no ataque do Botafogo: os atacantes Vinicius e Dino da Costa. Os dois eram artilheiros, apenas razoáveis. Acontece que, em duas excursões pela Europa, os dois fizeram um montão de gols, graças a bolas de pai pra filho que recebiam de Garrincha. Garrincha driblava, vinha driblando os gringos, chegava à linha de fundo, mirava o colega e fazia, então, um passe na conta.
Na primeira excursão, Dino ficou na Itália; no ano seguinte, foi a vez de Vinicius. Até hoje, os dois vivem na Itália, felizes da vida. Garrincha não ganhou um tostão. Fazia aquilo por puro coleguismo, na base de uma salutar gratuidade.
O que se faz, atualmente, é inaceitável em qualquer esporte coletivo. O vôlei mundial comete essa mesma estupidez. No fim de cada torneio da Federação Internacional, dá-se um prêmio em dinheiro ao melhor atacante. Ora, o que seria de um cortador sem a bola que sai das mãos do levantador, pedindo ''me enterra, me enterra''? Então, por que não premiar também o levantador, peça tão decisiva pra que saia uma boa cortada? E que seria da sorte de um levantador sem a bola que lhe chega, lá de trás, limpinha, inconsútil?
Pagar cachê especial a um atacante, por gol marcado, é uma estupidez sem tamanho. O gol é um fruto que amadurece no esforço coletivo. Nasce no tiro-de-meta do goleiro e sai ganhando feitio, à medida que a bola vai sendo tocada de pé em pé. Não há gol que não seja precedido de um passe, de um drible, de uma intervenção de alguém.
Aliás, a celebração de um gol feita por um único jogador; sabe, leitor, aquele cara que sai correndo, na direção das câmeras de tevê, aquilo é péssimo sinal. É a exacerbação do individualismo. O atacante que assim procede considera que os colegas que o cercam só querem pegar carona na glória que é só dele. Por isso, repele, ostensivamente, o abraço solidário. Está na cara que, no time desse exibicionista, a ordem é cada um por si e o conjunto que se dane.
Sempre levei mais fé no gol compartido por todos. Quando os jogadores se abraçam e rolam na grama, empilhados, pode ficar certo, leitor, de que, ali está uma equipe unida, coesa. São 11 corpos, mas a alma é uma só.
Vamos que a moda pegue. E se o Rogério Ceni ou o Marcos ou o Oliver Khan, se um desses grandes goleiros resolve exigir em contrato um plus por gol feito que conseguir evitar? Já pensou, amigo, na avenida que os zagueiros vão abrir, ''involuntariamente'', pra entrada dos atacantes adversários?
Encerro este artigo com uma regra de ouro que exprime, à perfeição, o sentido coletivista do futebol e que condena, de cara, qualquer privilégio concedido em contrato a um membro da equipe: o jogador que está sem a bola é tão importante quanto o que está com a bola.
O resto é insensatez.
Belos gols
A rodada da Páscoa nos brindou com alguns gols de vitrina. Fico com três: o de Marcelinho, cobrando falta do meio da rua, contra Rogério Ceni: foi um míssil de longo alcance; o outro golaço marcou-o o atacante Guilherme, num sem-pulo, um chute primoroso. Aliás, Guilherme voltou a fazer gol, depois de um longo penoso jejum. Guilherme é um artilheiro que procede como a lua: vive entre o minguante e o crescente. O terceiro, na minha preferência, foi feito pelo também atleticano mineiro Alexandre, bordando o seu gol com dois drilbes curtinhos, na pequena área, obra de requinte e sangue-frio.
E-mail: xapuriarmandonogueira.com.br

mockup