São Paulo - A onda do politicamente correto torna o futebol cada vez mais chato, a ponto de um drible ser analisado por dirigentes, técnicos e jogadores para se saber se foi ou não ''humilhante''. Nas entrevistas, quem sai do padrão ''o professor pediu e vamos brigar pela vitória'' já é encarado como provocador, principalmente antes dos grandes jogos.
Isso para não se falar das comemorações. Além de não poder tirar a camisa nem festejar com os torcedores no alambrado, atitudes coibidas com cartão amarelo, agora os atletas também são fiscalizados a não ferir a ''honra do adversário'' depois de marcar um gol.
Qualquer gesto se torna agressivo e é prontamente rebatido por aqueles que estão em desvantagem no placar. Fica difícil de imaginar como Dadá Maravilha iria se tornar uma lenda no futebol de hoje sem poder dar nomes a seus gols ou criar coreografias.
''Nunca ofendi ninguém, nunca humilhei ninguém'', disse o atacante Viola, 39 anos, atualmente no Duque de Caxias-RJ. Em 1993, quando atuava pelo Corinthians, ele imitou um porco ao marcar o gol da vitória do time do Parque São Jorge no primeiro jogo da decisão. ''Foi uma homenagem e os palmeirenses entenderam, pois depois de três anos fui jogar pelo Palmeiras e fui muito bem recebido'', disse Viola, que distorce um pouco a realidade dos fatos: seu gesto foi bastante contestado e lembrado pelos palmeirenses no jogo seguinte, quando o clube do Palestra Itália venceu por 4 a 0 e ficou com o título paulista.
O 'choro' de Valdivia após marcar o gol da vitória do Palmeiras sobre o Corinthians, no último domingo, no Morumbi, poderia ter resultado em cartão amarelo na visão de Marcos Marinho, chefe de arbitragem da Federação Paulista de Futebol. Isso se o árbitro do jogo, Rodrigo Braghetto, tivesse interpretado que o chileno debochou do adversário. ''Se o árbitro achar que ele provocou a torcida adversária, pode punir o atleta'', disse Marinho. ''É conduta antidesportiva.''
De acordo com o dirigente, o árbitro é que vai julgar se determinado lance é falta de respeito com o rival ou não. No caso do clássico de domingo, Marinho disse que não sabia que o zagueiro William havia chamado Valdivia de chorão anteriormente. ''Vai muito dos antecedentes e do que acontece dentro de campo'', declarou o coronel, que acredita que Braghetto até poderia ter amarelado Valdivia se considerasse a comemoração como um ato ofensivo ou provocativo.
Outro que ''chorou'' recentemente foi o flamenguista Souza, que comemorou um gol contra o Cienciano com o ''chororô''. Motivo: alguns dias antes, os botafoguenses, derrotados na final da Taça Guanabara, choraram após o jogo.
Em 2002, o árbitro gaúcho Leonardo Gaciba aplicou o cartão amarelo ao atacante Jabá, do Coritiba, em um jogo contra o Santos, em Curitiba. Detalhe: Gaciba, hoje apontado como o melhor juiz do Brasil, considerou menosprezo ao adversário o fato de Jabá ter insistido no drible. Seguindo este raciocínio, Garrincha seria expulso em todos os jogos.
Outro que não tem aprovação geral é o atacante Kerlon, do Cruzeiro, que criou o ''drible da foca''. Muitos críticos foram a favor de Coelho, que em um clássico com o Atlético-MG, ano passado, pelo Campeonato Brasileiro, atingiu de forma violenta o habilidoso adversário.
É cada vez mais raro que um jogador exalte a qualidade técnica do adversário. Na final do Brasileiro de 2002, o santista Robinho pedalou sete vezes na frente do corintiano Rogério antes de sofrer o pênalti. ''Ele fez valer sua ótima condição técnica'', sempre repetiu Rogério, atualmente no São Caetano.
Tempero
Para a psicóloga do esporte Kátia Rúbio, professora da Faculdade de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP), é preciso ser mais flexível na interpretação dos gestos nos campos de futebol. ''É só uma maneira de ampliar o espetáculo, de colocar tempero. Isso acontecia desde os tempos do Dadá Maravilha. É preciso ter flexibilidade na interpretação destas gestualidades.''
Kátia também lembra que manifestações em campo - que ela vê como uma dramatização - acabam recebendo um desdobramento às vezes exagerado. ''Eu me preocupo quando essas manifestações viram pretexto para situações agressivas.'' Lembra, por exemplo, quando o meia Diego, então no Santos, arrumou briga com Fábio Simplício, do São Paulo, ao comemorar um gol em cima do símbolo são-paulino no Estádio do Morumbi.

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