Futebol feminino vive de ilusões
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domingo, 02 de fevereiro de 2014
Rafael Souza<br.Reportagem Local 
16 de setembro de 2013, Rio de Janeiro. Confederação Brasileira de Futebol e Ministério do Esporte anunciam a criação do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. Com pompa, o ministro Aldo Rebelo discursa, confirma um patrocínio da Caixa de R$ 10 milhões ao torneio e promete fazer todo esforço possível para ajudar a modalidade, enfim, a decolar.
Mas o que parecia ser um marco na história do futebol feminino brasileiro teve pouco ou quase nenhum efeito até o momento. Pouco mais de quatro meses depois, o cenário não apresenta grandes avanços, como era esperado. Pelo contrário. Às vésperas de sediar os dois maiores eventos esportivos do mundo, a Copa do Mundo e as Olimpíadas, o que se vê pelo "país do futebol" são as mesmas histórias de dificuldade, com clubes tradicionais da modalidade anunciando o fechamento e jogadoras sem perspectiva de futuro.
Todo final de ano a história se repete. Em meio às promessas, a modalidade viu inúmeras equipes anunciarem o fim das operações. Os casos mais emblemáticos foram os de Santos e Corinthians, que mantinham em seus elencos uma variedade de jogadoras que servia a seleção brasileira, entre elas Marta, eleita cinco vezes a melhor do mundo, que teve duas passagens pelo time da Baixada Santista, e a atacante Cristiane, considerada a segunda melhor jogadora do Brasil, e que defendeu o Corinthians. O Santos fechou o time em 2011 e o Corinthians em 2009.
2013 foi mais um ano negro para o futebol feminino, que viu pelo menos mais duas equipes acabarem, o Atlético Mineiro e o São Caetano. O último venceu seis dos sete torneios que disputou, mas ainda assim não encontrou formas para manter-se na ativa. Quase todos eles esbarram no mesmo problema: a falta de patrocínio.
O São Caetano foi apenas mais um que o técnico Maurício Salgado viu fechar as portas. Em mais de uma década e meia de dedicação à modalidade, o treinador de 40 anos já até perdeu as contas de quantas vezes assistiu esse roteiro se repetir. Para ele, o futebol para as mulheres sente falta de um trabalho específico voltado para o seu desenvolvimento, semelhante ao que foi feito com o masculino a partir do final da década de 90.
"A grande questão é que o futebol feminino é tratado como uma coisa de momento, não há um investimento de continuidade, são apenas ações pontuais, como foi o Campeonato Brasileiro", critica o treinador, que já passou também por Corinthians, Palmeiras, América (RN) e São Bernardo (SP), e já comandou a seleção brasileira em cinco mundiais universitários.
"O futebol como um todo já tem a situação de você não ter certeza de onde vai estar no outro dia, e no feminino é ainda mais complicado. No São Caetano, ano passado, vencemos seis dos sete campeonatos que disputamos e não tínhamos garantia nenhuma de continuidade. O que acontece às vezes é que as coisas são muito ligadas às prefeituras, envolve política, e quando não interessa mais, o primeiro a ser cortado é o futebol feminino", relata o técnico.
Diante destas dificuldades, são poucos os clubes que conseguem se manter por mais tempo. O Foz Cataratas, de Foz do Iguaçu, é um deles. O tetracampeão paranaense já existe desde 2009 e é mantido graças a uma parceria Prefeitura de Foz do Iguaçu com a Hidrelétrica Itaipu Binacional.
Para Salgado, a culpa pela falta de patrocinadores não é da iniciativa privada, mas de quem organiza, ou melhor, não organiza o futebol feminino. "Tem também uma complicação grande em relação aos patrocinadores, que até entendo, que é a falta de um calendário. É tudo sempre feito em cima da hora, e você nunca sabe quais competições vai disputar, e aí fica difícil mesmo alguma empresa apoiar", reclama.
Ao contrário do futebol masculino, que viu nascer em 2013 o movimento Bom Senso FC, que briga por melhorias de condições de trabalho para os jogadores, o feminino sequer conta com um sindicato específico que defenda seus interesses. Não foi possível nem descobrir um número aproximado de jogadoras que está desempregada e de clubes que deixaram de investir na modalidade nos últimos anos.
Força Tarefa
Até então, a Fifa assistia tudo sem se mexer. Somente no início deste ano é que entidade máxima do futebol mundial resolveu intervir e criou uma Força Tarefa voltada para a modalidade. A primeira reunião aconteceu em Zurique, na Suíça, há duas semanas, e teve a presença de vários peritos e especialistas, que iniciaram uma discussão sobre a situação atual do esporte. É o primeiro passo para a criação de uma estratégia para identificar e estabelecer as prioridades para o desenvolvimento do futebol feminino.
Enquanto isso, as jogadoras seguem à mercê da sorte. A londrinense Giovanna Crivelari sabe bem o que é viver, ou tentar, no futebol feminino. Há quatro anos, a atacante de 20 anos deixou o bicicross para jogar futebol e desde então vive numa gangorra, literalmente. Em quatro anos de carreira, ela já viu dois clubes que defendia acabarem: o Santos e o São Caetano.
"É sempre a mesma coisa, o mesmo discurso de que vai melhorar, mas a gente não vê nada de concreto. Todo final de ano é igual, vai chegando outubro, novembro e fica aquela dúvida se vai dar para continuar ou não. É uma situação muito ruim", descreve a londrinense. "Tem sempre aquela pressão de ganhar os campeonatos para o time não acabar, mas chega no final do ano e o que acontece? Acaba o time", reclama.
Para ela, o atual cenário só mudará o dia em que a seleção brasileira conseguir um título de expressão, como a Copa do Mundo ou as Olimpíadas. "Olha o handebol feminino, agora que ganhou o mundial já está melhorando um monte de coisa. Complicado é ganhar um título desses sem estrutura", defende Giovanna.
Mas nem as dificuldades a fazem desistir da carreira. Tudo pelo sonho de chegar à seleção brasileira principal. "A gente sempre vê uma esperança. Muitas vezes desanima, a gente pensa em parar, mas é o que gostamos de fazer. Amamos jogar futebol", diz a atacante, que já passou pelas seleções de base e agora negocia contrato com o XV de Piracicaba (SP).
"Para quem trabalha com futebol feminino, isso é uma constante. Mas pelo fato de gostar muito, a gente sempre reconsidera porque tem esperança de ver a coisa melhorar", emenda Salgado, que foi obrigado a ter outro emprego para não correr o risco de ficar sem renda. "Gostaria de me dedicar exclusivamente ao futebol feminino, é o que amo fazer, mas hoje não dá", disse ele, que é também professor universitário.


