Quando entrarem no campo do Melbourne Cricket Ground na madrugada de amanhã (3 horas de Brasília) para enfrentar a Suécia, as jogadoras da seleção brasileira feminina de futebol se esquecerão de que, apesar de terem um time muito mais experiente que o dos homens, seguem sendo encaradas como amadoras. Por 90 minutos, elas deixarão de lado a discriminação que ainda sofrem por terem resolvido jogar bola, ignorarão a escassez de recursos e campeonatos no Brasil e se esquecerão dos 4 a 0 que tomaram dos EUA em amistoso na semana retrasada.
As mulheres do futebol estarão abrindo a participação do Brasil nos Jogos de Sydney, na Olimpíada com a maior presença feminina na delegação brasileira na história, e começam a corrida pela medalha que, em Atlanta-96, escapou por um triz.
E, para elas, isso é muito importante. ‘‘A expectativa está a um milhão. Não temos só uma responsabilidade, mas duas: estrear a participação brasileira e ainda mais no estádio onde Adhemar Ferreira da Silva ganhou sua segunda medalha de ouro. É uma emoção dobrada’’, afirma a atacante do São Paulo, Kátia Cilene, uma ex-velocista que trocou as pistas pelos gramados.
‘‘Nem sabia que a delegação brasileira tinha essa quantidade de mulheres, mas mostramos com isso que a mulher está ganhando seu espaço sem tirar o do homem’’, diz Kátia Cilene.
Serão 94 mulheres competindo, contra 110 homens. Em Atlanta-96, foram 66 mulheres inscritas, a maior marca até então. Há 20 anos, em Moscou, havia apenas 15 brasileiras na delegação.
‘‘Claro que tem o seu lado positivo. Mostra que, mesmo com tanta discriminação, a gente está cavando o nosso espaço e que temos valor. Mas, no caso do futebol feminino, mostra também que, depois de tanto tempo, ainda temos que superar dificuldades e mostrar que temos condições’’, declara a meia vascaína Sissi, 33, do alto dos seus 14 anos de seleção e da condição de craque do time.
Tida como uma das melhores jogadoras do mundo hoje, talvez atrás apenas de Mia Hamm (EUA) e de Sun Wen (China), Sissi ainda se submete a situações constrangedoras, como estar se alimentando apenas de pão na Austrália, pois considera a comida do hotel em Melbourne péssima.
Quando fala em dificuldades, Sissi, a mais velha do grupo, sabe melhor que ninguém como é difícil é atuar no Brasil, onde o futebol feminino praticamente se resume a três clubes – São Paulo, Vasco e Lusa Sant’Anna –, que, juntos, cederam as 18 convocadas.
Na equipe masculina, os 18 jogadores pertencem a 13 clubes (14, se o são-paulino Fábio Aurélio fechar com o Napoli).
No quesito salários, a disparidade é ainda maior: enquanto a média salarial mensal da seleção feminina gira em torno de R$ 2.500, entre os homens, onde ninguém tem mais de 23 anos, salta para cerca de R$ 60 mil.

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