Futebol feminino dá pontapé inicial em onda de protestos nos Jogos


MARCOS GUEDES
MARCOS GUEDES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O início do torneio feminino de futebol na Olimpíada de Tóquio foi marcado por manifestações políticas, dentro dos parâmetros estabelecidos pelo COI (Comitê Olímpico Internacional). Atletas de diversas equipes se posicionaram, em gestos como o ato de se ajoelhar antes da partida, ligado à luta antirracista.

Seis jogos abriram a competição, nesta quarta-feira (21), com destaque para a surpreendente vitória por 3 a 0 da Suécia sobre os Estados Unidos, campeões mundiais. O Brasil teve uma estreia tranquila, derrotando a China por 5 a 0, com gols de Marta (2), Bia Zaneratto, Debinha e Andressa Alves.

Grande nome da equipe verde-amarela na história da modalidade, Marta se tornou a primeira jogadora a balançar a rede em cinco edições dos Jogos. Na comemoração dos gols, a camisa 10 formou a letra "T" com os braços, homenagem à noiva Toni Deion, também jogadora de futebol.

Em outros duelos, os gestos que chamaram a atenção foram vistos antes de a bola rolar. O time da Austrália posou para a tradicional foto com o time enfileirado com uma bandeira aborígene. As jogadoras preferiram exaltar o povo nativo de seu país a exibir a bandeira habitual, azul, vermelha e branca.

Já as atletas da Zâmbia entraram em campo com o braço direito erguido e flexionado, com a mão espalmada na direção da cabeça. Nesse caso, não se tratava de uma manifestação política, mas um sinal de que o time atuava "sob a bênção do Senhor". Uma vez no gramado, aí, sim, elas se ajoelharam, repetindo o ato que virou símbolo da luta antirracismo. O mesmo se viu nas partidas Suécia x EUA e Grã-Bretanha x Chile: nos momentos que antecederam o apito inicial, todas adotaram a mesma posição.

"É uma oportunidade para a gente continuar usando nossas vozes para falar sobre o que afeta todos nós", afirmou a capitã dos EUA, Megan Rapinoe. "Temos aqui pessoas do mundo todo, e eu obviamente encorajo todos a usar esta plataforma para fazer o bem. Todos os olhos estarão voltados a Tóquio."

O raciocínio foi o mesmo das jogadoras da Grã-Bretanha, que tiveram uma reunião sobre como se manifestar. Na última Eurocopa, o time masculino da Inglaterra recebeu aplausos e vaias ao se ajoelhar, e as atletas britânicas resolveram que o melhor caminho a seguir era a repetição do gesto.

"Chegamos à conclusão firme, como grupo, de que queríamos mostrar apoio àqueles afetados pela discriminação e pela desigualdade", afirmou a capitã Steph Houghton, que se empolgou ao ver as chilenas se juntarem a elas. "Foi um momento de orgulho, mostramos que estamos unidas no esporte."

Do lado do Chile, não houve planejamento. Vendo as rivais ajoelhadas, as atletas foram, uma a uma, adotando a mesma posição. "Não nos comunicamos muito bem devido às dificuldades da linguagem. Mas, assim que vimos as inglesas se ajoelhando, fizemos o mesmo. É claro que somos a favor desse tipo de coisa", disse a meio-campista Karen Araya.

Foi ao longo dos últimos anos que o ato agora repetido nos campos japoneses ganhou o significado de luta contra o racismo. O gesto de se ajoelhar teve inicialmente notoriedade com Colin Kaepernick, jogador de futebol americano que adotou essa posição pela primeira vez em 2016, durante a execução do hino americano, para denunciar a violência policial contra negros.

Tudo tomou uma força maior no ano passado, a partir da morte de George Floyd. O policial branco Derek Chauvin imobilizou o homem negro em Minneapolis pelo suposto uso de uma nota falsa de US$ 20 e permaneceu ajoelhado em seu pescoço por mais de nove minutos, enquanto o homem, prensado no asfalto, tentava avisar: "Eu não consigo respirar".

A cena foi filmada, os EUA entraram em ebulição, e os protestos no esporte se tornaram recorrentes. Tão recorrentes que o COI teve de afrouxar suas rígidas regras contra manifestações políticas nos Jogos Olímpicos, permitindo alguns tipos de ato, como os vistos na abertura do torneio feminino de futebol.

O comitê está longe, porém, de adotar uma posição liberal sobre o tema. Ainda há uma série de proibições, como protestos no pódio, e a direção da entidade orientou as equipes que produzem o material das redes sociais oficiais dos Jogos de Tóquio a não publicar fotos e vídeos de protestos. Os gestos das atletas nas partidas de futebol de quarta apareceram normalmente nas transmissões ao vivo, distribuídas para todo o planeta. Não há registro deles, porém, nas plataformas de comunicação da Olimpíada.

É provável que os limites sejam testados ao longo das competições, que se estenderão até 8 de agosto. A intenção do COI é controlar ao máximo a situação e cultivar um ambiente de neutralidade política, algo difícil em um megaevento com centenas de países e em um momento de crescente ativismo dos atletas.

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