Em 1996, o futebol feminino brasileiro viveu seu primeiro grande momento com a conquista do inédito quarto lugar nas Olimpíadas de Atlanta-EUA. Naquele momento, todos esperavam que a conquista fosse o ponto de partida para que a modalidade, antes marginalizada, se desenvolvesse e seguisse os passos do masculino, disparado a maior potência econômica entre os esportes brasileiros.
O "boom" incentivou centenas de meninas em todo o Brasil a tentarem carreira no futebol. Federações foram fundadas e campeonatos nasceram. Mas pouco tempo depois, sem o investimento privado, tudo foi para o espaço. Oito anos depois, a prata em Atenas novamente renovou as esperanças de jogadoras e profissionais envolvidos com a modalidade, mas a história se repetiu. O avanço esperado novamente ficou longe de se consolidar.
O roteiro não foi diferente após a campanha do vice-campeonato da Copa do Mundo, em 2007, e a outra prata olímpica no ano seguinte, em Pequim, na China. É assim que vive, ou agoniza, o futebol feminino brasileiro: da impulsão momentânea das conquistas da seleção. Hoje, 17 anos depois, enquanto os times masculinos possuem modernas estruturas e conseguem competir com o mercado europeu, no feminino a situação continua a mesma.
Sem patrocinadores, os clubes não conseguem se manter por muito tempo. O Santos, por exemplo, nem com a presença de Marta, a brasileira cinco vezes melhor do mundo, fechou as portas há dois anos. Os poucos que ainda resistem carecem de estrutura e se mantém quase que como amadores, dependendo até de doações. O único campeonato atraente hoje é o Paulista, mas não consegue abrigar todas as atletas que ainda lutam para sobreviver no futebol. "É uma situação horrível. A cada ano que passa, em vez de melhorar está só piorando", desabafa a zagueira mineira Idenir Camila, de 23 anos.
Sem muitas opções, as atletas ficam restritas aos contratos curtos, com duração média de três meses, e salários que nem de longe podem ser comparados aos dos homens. "A gente quer levar para o lado profissional, mas nunca somos tratadas como profissionais. Isso desanima", reclama a atacante londrinense Giovana Crivelari, de 19 anos.
Paixão
Mas nem isso faz as jogadoras pensarem em desistir. Encontrar alguma boleira que nunca tenha tido uma decepção é missão praticamente impossível, mas a paixão pelo esporte, na maioria dos casos fala mais alto. "Eu continuo jogando porque gosto mesmo", jura a volante Érika Vitoriano, de 27 anos.
Para Camila, que deixou sua casa, em Minas Gerais aos 18 anos com o sonho de tornar-se uma jogadora de futebol, ainda não é hora de desistir. "Não dá para ir tão longe para depois voltar atrás", alega a jogadora, que coleciona passagens por clubes de vários estados do Brasil, entre eles o Barec Londrina.
Perguntada sobre o futuro, Giovana não conseguiu esconder que as incertezas já a fazem pensar em deixar os campos. "Quero muito voltar para a seleção, mas se continuar assim, com times acabando, vai ser difícil, ano que vem quero estudar", disse ela, antes de ser interrompida pela amiga Érika. "Não Gi, parar não". "Não quero parar, vou continuar treinando...", afirmou ela, que jogou o Mundial Sub-17 com a seleção brasileira em 2012.
Sem contratos desde a eliminação do Novo Mundo, de Curitiba, já na primeira fase da Copa do Brasil, há poucos dias, Giovana, Camila, Érika e a lateral Eliane vivem mais um período de indecisão. Elas se juntaram com mais cinco jogadoras e seguem treinando na Escola Chute Inicial Corinthians, na Zona Sul, no aguardo de uma nova oportunidade.
O sonho delas é ficar em Londrina, onde o coordenador de futebol feminino, Cláudio Fontes, tenta reativar o Barec, terceiro colocado no Paranaense em 2011. "Já temos um projeto pronto, conversei com o Élber (presidente da Fundação de Esportes) e estamos aguardando a abertura do edital", afirmou Fontes.
Em âmbito nacional, a esperança está na promessa de diretores ligados à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que projetam criar uma entidade nos mesmos moldes para administrar apenas o futebol feminino. "É um sonho nosso, tomara que aconteça mesmo", vislumbra Érika.

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