Futebol de Londrina perde 'patriarca' Cici
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quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Diego Prazeres<br>Reportagem Local 

"Toca no pé do véio!" Se tinha uma coisa que irritava o Véio era um passe mal dado. Mais do que falta de categoria, chegava a ser falta de respeito. Afinal, era ele já um senhor jogando em meio a rapazes às vezes 20, 30, 40 anos mais novos. A bola tinha que ir até ele e não o contrário. Jogou até os 80, vencido pelo alemão, adversário implacável. Nos campos, a longevidade de Orency Garcia de Moraes, ou simplesmente o Cici, o Véio, podia beirar a teimosia. Mas no fundo todos sabiam e entendiam: o futebol era tudo ou quase tudo para ele.
Tão sagrado que assim que veio parar em Londrina, vindo de São José do Rio Preto (SP) nos anos 70, uma de suas primeiras providências foi comprar um terreno anexo à casa do Jardim Quebec para montar um campo de futebol suíço. Foi a forma que o pecuarista encontrou pra fincar as raízes por aqui. E o que era sagrado para ele virou sagrado para os novos amigos também: quinta-feira, casa do Cici. E já é assim há 38 anos. Primeiro, a pelada. Depois, o churrasco, a resenha. Se falasse, o campo do Cici contaria orgulhoso que por ali já jogaram monstros sagrados como Coutinho, Jairzinho, Leão, Luiz Pereira e alguns tantos outros profissionais da bola. E o Sola.
Madrugada
O Véio também bateu sua bolinha por mais de três décadas nos campos do Londrina Country Club, onde organizou peladas, montou times vencedores no campeonato interno de futebol suíço e fundou o Galo da Madrugada uma espécie de confraria de peladeiros que saía de casa no meio da noite para entrar em campo às 4h30, 5 horas da manhã de domingo.
Mesmo quando se afastou do campo, porque o corpo já não obedecia mais, Cici não se afastou da bola. Trocou as peladas pelo futevôlei, em casa e no Pandeirão, o ginásio do Country. Até o Alzheimer se manifestar de vez, há cerca de cinco, seis anos.
E quis o destino que o Véio se afastasse definitivamente da vida numa quinta-feira, justamente o dia da semana que ele, involuntariamente, marcou para sempre no calendário dos peladeiros da cidade. Cici faleceu no início da manhã de ontem, aos 86 anos. A casa não abriu. "Ele sempre brincava: ninguém morra numa quinta-feira porque eu não vou ao velório", recorda um dos três filhos do Véio, Luiz Gustavo Pinheiro de Moraes, 53 anos, o Pelúcio.
O herdeiro natural do legado futebolístico do Cici. "Meu pai sempre foi muito amigo dos amigos. Se é uma coisa que eu invejava nele, aquela inveja boa, era os amigos que ele fez por causa do futebol. Todos tinham um carinho muito grande com ele e todos se achavam seus amigos", afirma Pelúcio, que desde a ausência do pai passou a ser o anfitrião da Casa do Cici.
O odontologista José Roberto Pinto, que nos campos de Londrina é o Zé Qué Qué, fala de boca cheia sobre a importância do Véio para o futebol da cidade: "Ele era o grande patriarca da boleirada. Abriu a porta pra muita gente. As pessoas que chegavam a Londrina, se jogavam bola, ele acolhia de coração aberto. Foi um cara fundamental sob todos os aspectos." O corpo de Cici será sepultado hoje, às 8h30, no Cemitério Parque das Allamandas. O pecuarista deixa esposa, três filhos e três netos.


