'Fui otário', diz Luxemburgo
Na entrevista coletiva que convocou para se defender das acusações da empresária Renata Carla Moura Alves, no final da tarde de ontem, no Rio, o técnico Wanderley Luxemburgo afirmou que foi a maior vítima no episódio. Fui um otário. Só fiquei com dois imóveis que ela comprou e, mesmo assim, depois repassei. As outras coisas sumiram, declarou o treinador da seleção, que estava acompanhado do seu advogado Michel Assef.
Renata e Luxemburgo são investigados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal por suspeita de sonegação fiscal. O inquérito da PF teve início em 1997, quando agentes desconfiaram da série de bens adquiridos por Renata nos últimos anos.
De acordo com a empresária, ela comprou vários imóveis e carros a pedido do treinador em leilões públicos. Renata disse que Luxemburgo optava por usar os seus serviços para comprar bens na tentativa de sonegar imposto.
O treinador atribuiu as acusações da empresária a uma típica perseguição imposta a figuras públicas no Brasil. Não é porque eu sou uma pessoa pública que tenho que arcar com qualquer tipo de acusação. Foi assim no caso da manicure e será assim desta vez, afirmou Luxemburgo, em referência à acusação de assédio sexual que sofreu em 1996.
O técnico disse ainda que não iria fazer acordo com quem quer que fosse, respondendo à acusação do pai de Renata de que ele teria tentado abafar o caso por intermédio de um acerto.
Ontem, Renata, que programara uma entrevista em seguida à de Luxemburgo, não havia cumprido a promessa até 19h30. Segundo o pai da empresária, o advogado Roberto Carlos Baptista Alves, ela estava muito nervosa e temia represálias por parte do treinador. Renata ligou por volta das 15h30 para o pai, dizendo que estava com medo de sair de casa, pois temia ser assassinada. Ela está em pânico. Inclusive está sob efeito de tranquilizantes.
O advogado contou que recebeu ontem, às 11h30, uma ligação de um empresário de São Gonçalo, que seria emissário de um amigo de Luxemburgo, perguntando o que seria preciso para estancar os problemas. Alves disse ter respondido que era só pagar a dívida trabalhista que ele tem com ela.
Luxemburgo responde a processo na Justiça do Trabalho do Rio, movido pela empresária. Ele já foi condenado à revelia pela 26ª Vara do Trabalho do Rio. Ela pediu todos os direitos trabalhistas a que tinha direito no período em que diz ter atuado em leilões para Luxemburgo. Segundo os advogados de Renata, a indenização, que está sendo calculada, é de cerca de R$ 1,5 milhão.
Sobre a acusação, feita pela empresária anteontem, de que Luxemburgo recebia comissão na compra e venda de jogadores, Alves disse que, por causa da ligação com Luxemburgo, sua filha conhecia vários dirigentes de grandes clubes do Rio.
Afirmou ainda que ela não ganhava nada na suposta comissão que Luxemburgo recebia dos jogadores e que a prática era usual no Brasil. A minha filha me disse que a porcentagem na venda de jogadores é uma coisa comum na CBF. Por causa da suspeita de sonegação fiscal, Luxemburgo teve o seu sigilo bancário quebrado pela Justiça Federal do Rio de Janeiro.
Luxemburgo reconheceu que pode ter sonegado imposto de renda, como investiga a Polícia Federal. Renata realizava arremates para mim, e alguns bens ficavam em seu nome, outros no meu, disse, sem detalhar como os negócios aconteciam. Alguns bens não foram declarados, mas a maioria sim. Segundo o treinador, Renata, que contava com uma procuração em seu nome, o enganou. Eu fui um otário, afirmou ele, que garantiu ter tido prejuízo com os negócios.
Em relação ao fato de se beneficiar de negociações de jogadores, enquanto era técnico de clubes, Luxemburgo foi enfático na resposta. Só indiquei jogadores para os clubes que dirigia e disso não abro mão, disse. Quem me conhece sabe que não sou de entrar em negociações. Para o treinador, as acusações não vão abalar o seu comando na seleção. Um coisa está separada da outra, afirmou. Vou estar na direção do time na segunda-feira, informou, se referindo à apresentação dos jogadores.
Grandes negócios Em menos de dois anos, as convocações de Luxemburgo já renderam negócios que somam quase US$ 100 milhões. Com a abertura do mercado internacional, a desvalorização cambial e a falta de estrutura dos clubes brasileiros, o chamado para a seleção nacional significa quase uma garantia de transferência milionária. O que chama a atenção no caso de Luxemburgo é a rapidez do processo. Em alguns casos, o período entre a convocação e a negociação não chegou a um mês.
Os zagueiros João Carlos (Cruzeiro) e César (Portuguesa), por exemplo, foram negociados, respectivamente, com o Corinthians e o Paris Saint-Germain algumas semanas após serem convocados, em junho de 1999. O passe de João Carlos, que só foi chamado aos 27 anos, custou US$ 4 milhões ao clube paulista. Já César, reconvocado após uma passagem na seleção de Zagallo, foi para a França por US$ 5 milhões.
Com intervalos um pouco maiores, o lateral Evanílson e o atacante Fábio Júnior, ambos do Cruzeiro, também tiveram seus passes negociados após as primeiras convocações. Nesses casos, no entanto, os valores foram ainda maiores. Evanílson, que veio do América-MG em janeiro de 1999, com passe estipulado em R$ 550 mil, foi convocado em junho do mesmo ano. Após uma boa partida contra a Holanda, transferiu-se, em agosto, para o Borussia Dortmund (Alemanha) por US$ 7 milhões (R$ 13 milhões). Ou seja, em dois meses seu passe ficou valendo 20 vezes mais.





