"Frota do Azeite" chega a Cabrália
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de abril de 2000
Por Julio Cruz Neto 
Salvador, 20 (AE) - Quase todos os veleiros portugueses que estão chegando a Santa Cruz de Cabrália para celebrar os 500 anos do descobrimento do Brasil fazem parte da Frota do Azeite. São 23 barcos, todos levando velejadores não profissionais (médicos, economistas, pilotos de avião) que divulgam a chegada do produto ao Brasil - também há 500 anos. (a reportagem da Agência Estado está a bordo do Cisne Branco, que chega a Cabrália sábado de manhã) Nas antigas naus e caravelas, a variedade de alimentos era pequena.
Mas não faltava o azeite, imprescindível na culinária portuguesa. E diz a lenda que os navegadores o jogavam ao mar para acalmar as águas. "Foi assim (pelo mar) que o azeite chegou ao Brasil, e é assim que continua sendo", justifica Luís Folque, diretor da Casa da Azeite, associação de embaladores de azeite português que patrocina a Frota - segundo ele, com cerca de US$ 150 mil.
Além do dinheiro, Folque afirma que "todos os barcos ganharam azeite com fartura, 50 litros para cada". Isso dá mais de um litro por dia de viagem. Um dos integrantes da frota é Leonel Carvalho, único tripulante do Ventosga (vento forte, na gíria). E um dos dois solitários da regata, além de André Homem de Mello, do Fia.
Os veleiros portugueses serão transportados de volta num cargueiro, mas Carvalho preferiu voltar velejando: "Eu gosto é de navegar." De Lisboa a Salvador, viajou sozinho. Entre Salvador e o Rio, terá companhia da mulher e do filho. Mas de lá em diante, voltará a ser o português solitário. Publicitário de 49 anos, Leonel Carvalho teme problemas de relacionamento com outros tripulantes: "O espaço é muito pequeno, precisa ter espírito marinheiro." E também cita o problema da logística: "Dar de comer a seis pessoas é complicado." Com 35 pés (10,6 m), o Ventosga é o segundo menor veleiro. O Marujo, que é só um pouco maior (36 pés ou 11 m), tem cinco tripulantes.
Mesmo com a família, Carvalho vai continuar sendo o cozinheiro: "Minha mulher se sente mal cozinhando a bordo." Ele conta que descobriu um método prático de conservar carne: "Você cozinha em casa, põe num vidro vedado com borracha e coloca na panela de pressão em banho-maria. Isso cria vácuo e ela dura meses, até anos. Eu trouxe seis vidros e ainda está ótima." Com a família a bordo, Carvalho poderá dormir mais. Sozinho, acorda de meia em meia hora para checar se está tudo em ordem. Também terá alguém para lhe prestar auxílio médico, se necessário. Recentemente, ficou cinco dias com a garganta inflamada e sem conseguir comer. Foi preciso o veleiro Guyka se aproximar e passar um antibiótico através de uma corda.
Mesmo com outros veleiros multicasco, o trimarã Bahia voltou a ser o fita azul. Foi o primeiro a completar a quarta perna, chegando a Cabrália em 21 horas, média de 9,5 nós (17,5 km/h), para ser recebido por 28 índios trajados a caráter.
A Nau Capitânia continua na base naval de Aratu, próxima a Salvador. Continua também impossível conseguir alguma informação concreta, mas parece claro que deixaram para a última hora, bem ao estilo brasileiro, e o navio não ficou pronto.


