Melbourne, Austrália - Ele só é feliz ''com um volante na frente e quatro rodas em volta'', como já definiu. Na Austrália, lembra um novato: sorri, vibra, brinca com a equipe. Nas entrevistas, responde com um ''não'' automático, ácido até, aos incrédulos que insistem na pergunta óbvia sobre perda de motivação.
A questão é compreensível. Seu comportamento é que desafia a compreensão: Michael Schumacher mantém-se obcecado. E na madrugada de hoje para amanhã começa a correr para coroar essa atitude.
Aos 35 anos, vai iniciar, como favorito, sua 14 temporada na categoria. Nunca, em toda a história, um piloto conquistou um título após tanto tempo de Fórmula 1.
O recordista isolado da longevidade era, até o ano passado, Alain Prost. Em 1993, na sua 13 temporada, o francês conquistou o último dos seus quatro títulos. Foi o bastante. Antes mesmo de garantir a conquista, já havia avisado que pararia, que iria se aposentar.
Dez anos depois, Schumacher igualou a persistência de Prost: venceu o 13º Mundial que disputou. Mas decidiu continuar.
Todos os outros campeões pararam antes de chegar à 14 temporada. Sabiam, talvez, que haviam chegado ao limite. Perderam, certamente, a motivação.
Mas Schumacher continua aceso. Dez anos após seu primeiro título aos 25 anos, o segundo mais jovem campeão , o alemão vai atrás do heptacampeonato.
''Sou como um bom vinho. Sinto-me melhor a cada ano'', disse na pré-temporada. ''Estou ainda mais motivado do que em 2003.''
A largada para o GP da Austrália, abertura do Mundial, acontece à meia-noite de hoje (horário de Brasília), com transmissão da Rede Globo.
Nos seus 13 anos na F-1, Schumacher teve chances reais de título em nove. Desde 94, só sumiu em 96, quando iniciou o ambicioso projeto de reerguer a Ferrari.
Quem parece se abalar é a concorrência. Por mais que trabalhem e por mais que inventem, McLaren e Williams não conseguem se aproximar da Ferrari a ponto de ameaçar o alemão.
Como manter a motivação, por exemplo, após os primeiros treinos livres em Melbourne, na madrugada de ontem? Na segunda volta que deu na temporada, ainda acertando o carro, Schumacher destruiu o recorde do Albert Park. Ao fim do dia, a escuderia italiana terminou com os dois melhores tempos além do alemão, Rubens Barrichello também baixou a marca da pista.
Restou, aos adversários, tentar desmerecer o feito. ''O treino de sexta não vale para nada'', disse Ron Dennis, chefe da McLaren.
Schumacher, como que para manter sua chama, concordou. ''Estou feliz, mas ainda é cedo para saber como nós estamos em relação aos outros'', afirmou, com um ligeiro sorriso, uma senha para mostrar que, no fundo, está apenas sendo diplomático.

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