Formar craques ainda é ótimo negócio
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sábado, 15 de fevereiro de 2003
Antero Greco<BR>Agência Estado 
São Paulo - Kaká é o nome do momento, o jogador mais badalado e em torno do qual se fazem prognósticos otimistas. O meia-atacante tem sido ponto de referência e fator de desequilíbrio no São Paulo. A alegria de seus passes e gols pode durar pouco tempo no time paulista, já que crescem os olhos de estrangeiros, dispostos a colocar a mão no bolso para tirá-lo de casa. Mas o astro em ascensão deve render muito para os cofres do Morumbi não só em eventual transferência, e sim por toda a carreira profissional.
Isso mesmo, Kaká é uma mina de ouro basta o São Paulo explorá-la com sabedoria. Como primeira providência, teria de acelerar o processo de reajuste salarial do mais jovem candidato a milionário da bola e estender o compromisso atual, com validade até o ano que vem. Os gastos extras imediatos tendem a transformar-se em investimento de retorno seguro, a médio e longo prazos. Primeiro porque a multa por rescisão de contrato, hoje em torno de US$ 20 milhões, cresceria. Por extensão, ficaria mais difícil o rompimento unilateral do acordo ou o rapto por parte de algum gigante europeu. Como aconteceu com o Paris Saint-Germain, que tirou Ronaldinho Gaúcho do Grêmio por um punhado de dólares, dois anos atrás.
O São Paulo ganharia muito com a venda do passe e reforçaria enormemente seu caixa? Certo, mas em parte. Pela nova regulamentação de transferências internacionais, editada pela Fifa em julho de 2001, a equipe paulistana terá direito a porcentagem sobre seu ídolo mesmo depois que houver a cessão de seu passe , todas as vezes quantas ele mudar de clube.
Basta imaginar duas hipóteses. Na primeira, Kaká vai para o Real Madrid, por exemplo, por US$ 30 milhões. Nessa operação, o São Paulo fica com a bolada integral. Na segunda, os espanhóis decidem repassá-lo para o Milan, daqui três, quatro anos, por US$ 80 milhões. O lucro terá sido enorme, mas caberá uma parcelinha para os brasileiros. Como formador do atleta, terá direito a até 5% do valor total da transação, a ser pago pelo comprador. Nesse caso, seriam mais US$ 4 milhões, muito bem-vindos para o tricolor.
Não há mágica nesse processo, nem falcatrua, muito menos generosidade de italianos e espanhóis. É norma da Fifa, que teve um rasgo de justiça ao estabelecer normas para transferências de jovens valores. A entidade que controla o futebol no mundo percebeu que os clubes responsáveis pela criação dos craques estavam sendo prejudicados por mercado agressivo entenda-se na Europa , que os arrancava da origem cada vez mais jovens. Para dar um rumo nessa feira-livre internacional de talentos, e para não desestimular investimentos em escolinhas e nos times de base, foi criada uma série de leis.
A intenção foi a de proteger os clubes com menos recursos, atesta Ivandro Sanches, advogado que se especializou nesse aspecto da legislação esportiva.
A Fifa determina, basicamente, que clube formador é aquele que incentivou, orientou, deu espaço para jogadores dos 12 aos 23 anos. Uma fase que representa surgimento, ascensão e afirmação de profissionais. Essa equipe é que tem direito aos 5% de toda transação subseqüente à primeira liberação de passe. A norma da Fifa vale para transferências que ocorreram a partir de setembro de 2001 e não é retroativa.
Há muitos clubes brasileiros rastreando seus ex-atletas, atentos à possibilidade de faturar um extra. Da mesma forma, são muitos os casos de atletas que podem render uns cobres a mais para seus clubes originais. Edmilson, do Lyon, ainda deve dar dividendos para o XV de Jaú e o São Paulo, assim como Ewerthon, do Borussia Dortmund, provavelmente dará alegria monetária ao Corinthians. Ou o próprio Ronaldinho Gaúcho tem tudo para deixar menos frustrado o Grêmio. Basta que sejam negociados por seus patrões atuais.
Os clubes compradores têm, portanto, de destinar verba adicional de 5% para essa nova despesa, sempre que investir em nova contratação. Os times mais ricos também se previnem e exigem que eventuais reclamantes comprovem ter tido alguma participação na formação dos craques. Por isso, é importante que os clubes sempre cadastrem seus atletas, mesmo que sejam muito jovens, e façam registro nas respectivas federações ou confederações nacionais.
O filão está aberto para os clubes formadores e brasileiros são pródigos na exportação de talentos. Também é campo fértil para advogados. A intenção é orientar os times, ajudá-los a mapear onde estão seus ex-atletas e principalmente dar assessoria na hora de formatar contratos desde cedo, admite Sanches. Quem sai na frente leva vantagem. E o dinheiro continua a girar no futebol.


