O ex-secretário da Fazenda de Londrina, Francisco Simões, 63 anos, sofreu no último domingo. Mas não foi pouco, como das vezes em que o Corinthians perdeu decisões de títulos brasileiros, como em 1994 (para a Palmeiras) ou em 2002 (para o Santos). Ele garante que as decepções anteriores não foram nada perto do que sentiu no domingo, após o empate em 1 a 1 com o Grêmio, no Estádio Olímpico, em Porto Alegre. ''Foi a maior tristeza da minha vida. O time lá chorando no campo e eu vendo o meu filho chorar com 37 anos de idade... Olha que foi duro'', relatou Simões à Folha, em seu escritório de assessoria empresarial que mantém no Centro da cidade.
No bate-papo com a reportagem, Simões, que mora em Londrina desde 1958, fez questão de ressaltar a idade do Corinthians, fundado em 1910. ''Em 97 anos de história é a primeira vez que o time foi rebaixado''. Sobre as causas do descenso, ele culpa a diretoria. ''Nós tínhamos como presidente um senhor de 86 anos, chamado Dualib, com idade de quem já deveria ter vergonha na cara e que estava o tempo todo sendo vasculhado pela Polícia Federal. E o restante da diretoria também. É brincadeira'', desabafou.
Segundo ele, o ''dano moral'' foi muito grande e afetou até jogadores. ''Imagino os atletas vendo o que saía todos os dias nos jornais e pensando: 'Que patrão em tenho!'. Daí o rendimento cai'', analisa. Em sua avaliação, os atletas que ''abandonaram o barco'' no meio do campeonato, como Roger, Marcelo Mattos e Rosinei fizeram muita falta. Mas ele ressalta que o time teve jogadores ''de caráter'' e ''decentes'' como Betão e Felipe.
Sobre 2008, Simões projeta um ano bom, no qual o Corinthians deverá subir de novo para a Série A. ''O Palmeiras já caiu e subiu. Tenho esperança de que vamos subir também'', motiva-se.
Torcedor fanático
Simões é o que pode ser chamado de torcedor fanático. Ele conta que virou corintiano aos 14 anos porque em 1954 o time havia ganho o título do Torneio Quarto Centenário de São Paulo. ''Depois daquilo só vi sofrimento e aguentei 23 anos de gozação de santistas e palmeirenses, que foi o tempo em que ficamos na fila (por títulos)''. Mas em 1977 chegou a sua vez. Ele apostou que o time ganharia a final do Paulista contra a Ponte Preta e foi de ônibus aos três jogos no Pacaembu e levando consigo o filho Eduardo, na época com 7 anos. ''Aquele título foi no sufoco. Ver o Basílio fazer aquele gol e depois ouvir o juiz apitar o fim do jogo... Foi a maior emoção da minha vida'', confessa.
Dois anos depois ele repetiu a dose com o filho, indo de novo de ônibus para os três jogos finais do Paulista contra a Ponte. E saiu de novo feliz do Pacaembu. ''A gente era louco. Ia para as decisões do Corinthians onde quer que fosse'', relata.
Uma prova de que Simões sempre encarnou o que é ''ser realmente corintiano'' é que antes das alegrias de 77 ele foi muito persistente. Esteve na famosa ''invasão corintiana'' do Maracanã, em 1976, quando os alvinegros eliminaram o Fluminense do Brasileiro, nos pênaltis, e depois viu o seu time perder o título para o Internacional no Beira-Rio. ''A minha mulher achava loucura, mas o menino queria (seu filho Eduardo) e então levei ele para o Rio de Janeiro e depois para Porto Alegre. Na primeira viagem, voltamos batucando até Londrina. mas a segunda foi triste, terrível''.
Simões conta que depois de ver o goleiro Manga defender bolas incríveis para o Inter, ''que também tinha o Figueroa, o Caçapava e o Falcão, que jogaram muito'' viu o Timão perder o título e o pior ainda os aguardava do lado de fora do estádio. ''Nosso ônibus estava com todos os vidros quebrados. Não sobrou um. E tivemos que encarar mais de 20 horas de viagem naquele frio, à noite, na volta para Londrina. O motorista tocava o pau (corria) e não tínhamos o que fazer. Para proteger o meu filho, enrolei ele com as minhas roupas e passei frio quase a viagem inteira'', contou.

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