Foi minha melhor partida, diz Luxemburgo
Porto Alegre, 07 (AE) - Quando Ronaldo marcou o quarto gol contra a Argentina, Wanderley Luxemburgo se levantou do banco de reservas, se desprendeu do abraço do médico Joaquim Grava, e encarou a torcida gaúcha com os dois braços levantados.
Muito mais do que se vingar daqueles que o chamaram de "burro" quando tirou Ronaldinho Gaúcho, o treinador vibrava com quem duvidava do seu trabalho depois da derrota brasileira em Buenos Aires.
" Foi a minha melhor partida como treinador da Seleção Brasileira. Ainda mais porque veio depois de uma derrota contra a Argentina. Eu e os meus jogadores não tínhamos nada a provar para ninguém. Nós tínhamos de provar para nós mesmos que tínhamos condições de jogar no nosso limite. Repeti o time que perdeu na Argentina e ele me deu a reposta em campo. Não iria estragar um time que está quase formado por apenas 90 minutos. Mostramos o real potencial da Seleção Brasileira com essa vitória. Vou pedir para gravar esse jogo e mostarei sempre a fita dessa partida quando for começar um trabalho. Esse é o verdadeiro Brasil."
Luxemburgo estava desgastado com as cobranças que o seu time era muito bonzinho e precisava de um líder. O treinador usou o lado psicológico ao extremo para essa partida. A psicóloga Susy Fleury falou aos jogadores e, apelando à neurolinguística, explicou a satisfação da superação depois da derrota. O treinador foi mais direto. Cobrou uma postura de homem ao time.
"Mostrei que não precisa ser violento para enfrentar a Argentina. Mas ser macho em cada dividida. Tem que saber se impor. E foi o que fizemos. Ganhamos cada lance sem precisar apelar à maldade como fez por exemplo o Sorin, que entrou em uma dividida com o Cafu com as travas da chuteira levantadas tentando tirar o nosso jogador da partida. Ninguém é mais homem do que ninguém."
O treinador teve de se render ao talento de Rivaldo. O jogador marcou três gols e ainda deu passe para Ronaldo marcar o quarto gol. Ele havia sido o atleta mais cobrado pelo treinador pela sua omissão em Buenos Aires. "O Rivaldo não pode ficar parado no canto esquerdo do campo. Dei para ele liberdade que não tem no Barcelona. Ele podendo se movimentar por todos os lados, anulou a marcação argentina. Mas tem que se mexer. Seu preparo físico é excelente e seu talento exuberante. Na frente, ele vai poder errar, errar, mas sei o que pode produzir quando acerta. Já o tinha colocado assim na Copa América, contra o México e Uruguai. Marcou os gols e mostrou novamente o grande jogador que é."
Quanto a Ronaldinho, Luxemburgo mostrou satisfação especial pela recuperação do jogador. "Em campo ficou provado mais uma vez o quanto vale a pena apostar no seu potencial. Não iria fazer como muito gente estava pedindo para execrar o menino e desperdiçar um jogador com um talento tão grande. Ganhei mais esta aposta."
Luxemburgo deu apenas alguns detalhes da mudança grande de comportamento do Brasil de Buenos Aires para a Argentina. "Consegui colocar na base apenas do papo, já que não tive tempo para treinar, o time marcando a Argentina no seu campo. Travamos Rendondo e o Veron. Eles perderam a saída de bola. Nosso laterais também foram para o jogo e levaram a marcação que eles tentaram fazer novamente. Lá na Argentina eles nos marcaram com três na frente, aqui vieram com dois tentando fechar o meio de campo. Mas com o time motivado e tocando a bola com inteligência fomos ganhando o jogo. Também ficou claro que Zé Roberto e Rivaldo podem se dar muito bem juntos. Bom para quem ainda não sabia. Eu tinha certeza."
O treinador foi vaiado pelos torcedores gaúchos quando tirou Ronaldinho Gaúcho. Mas mostrou bom humor. "Eu tinha certeza que seria vaiado quando tirasse o Ronaldinho, o Scheidt ou o Émerson. Mas não posso ficar pensando na torcida ao Ter de fazer uma alteração para melhorar a equipe. Está tudo bem."
Como o treinador está preparando a equipe para as Eliminatórias, ele se confessou emocionado pelo comportamento dos torcedores gaúchos. Mesmo sendo xingado de burro por boa parte do estádio. "Estou sinceramente agradecido com o apoio dos torcedores ao nosso time. Eles foram fundamentais na vitória de hoje. Será esse clima que dominará as Eliminatórias. O apoio em casa é fundamental."
Um fato que não passou desapercebido por Luxemburgo nestes dois amistosos contra a Argentina foi a participação de Scheidt. Ele não só ganhou a posição de João Carlos como ficou com status de jogador ideal na zaga. "O Scheidt mostrou técnica e personalidade. Quando precisa dar um bico, também dá. Foi muito bem. E olha que ele nunca tinha jogado com o Antônio Carlos. Realmente, estou satisfeito."
Luxemburgo já está preocupado com o amistoso do próximo mês contra a Holanda. "Talvez teremos sérias dificuldades para conseguir a liberação do Rivaldo, do Ronaldinho e do Zé Roberto. Vamos trabalhar bastante para estudar a melhor convocação. Até porque temos como meta o Pré-Olímpico de janeiro."
Antes de sair do estádio Beira Rio, Luxemburgo teve uma surpresa. Ganhou uma séries de fotos de quando atuava como lateral do Internacional na década de 80. "Eu adorei ganhar as fotografias
mas não me lembrava o quanto era feio."





