Rio, 27 (AE) - O futebol carioca corre o risco de ter, em pouco tempo, apenas dois clubes de ponta, Vasco e Flamengo, no cenário nacional. A ameaça iminente de rebaixamento do Botafogo à Série B e a humilhação a que está submetido o Fluminense, obrigado a dividir seu prestígio na Terceira Divisão com clubes sem nenhuma expressão, como Tocantinópolis e Dom Pedro-DF, são o reflexo de administrações amadoras, do descrédito dos últimos campeonatos cariocas - o de 1999 foi uma exceção -, e da falta de investimento no setor.
Esse quadro de instabilidade no Rio foi anunciado em 1991 pelo então técnico do Flamengo, Wanderley Luxemburgo, antevendo a crise que atingiria os outros clubes cariocas, que, em sua avaliação, erravam por não se preocupar em dar uma estrutura moderna às suas equipes.
Luxemburgo, na época, recebeu muitas críticas por suas declarações.
Quase dez anos depois, com praticamente o desaparecimento do América, a repentina queda do Fluminense e os sucessivos fracassos do Botafogo, o futebol do Rio vive o medo de perder algumas de suas principais referências.
O presidente do Flamengo, Edmundo dos Santos Silva, reconhece o atual distanciamento entre os dois clubes de maior torcida do Estado e os outros de tradição do futebol carioca e se dispõe a ajudar na recuperação de Fluminense, Botafogo e até mesmo do América. "O negócio futebol só é válido quando existem vários clubes fortes; quanto mais clubes em condições de igualdade, maior a possibilidade do surgimento de novos valores", diz. Ele anunciou que deve se reunir esta semana com o vice de Futebol do Vasco, Eurico Miranda, para tratar do assunto.
"Temos de pensar num Campeonato Carioca com cinco ou mais times capazes de lutar pelo título." Edmundo aposta em três tópicos para um clube de futebol manter-se em evidência: ter sempre um ídolo, fortalecer cada vez mais as categorias de base e não vender os melhores jogadores. Ele admite discutir a criação de uma liga nacional em 2000, o que poderia trazer o Fluminense e o Botafogo, se for o caso, de volta à Primeira Divisão. Faz, no entanto, uma ressalva. "Sou, primeiro, a favor da legalidade e da moralização." O futebol do Flamengo, segundo o dirigente, custa R$ 1,5 milhão por mês.
Para Eurico Miranda, a "tragédia" dos demais clubes se deu por vaidade e incompetência dos dirigentes. Ele também considera "péssimo" para o Rio viver à exclusão de Fluminense e Botafogo e conta como o Vasco expandiu-se nos últimos anos, inclusive nos esportes amadores. "Os grandes clubes precisam de tranquilidade política para depois resolver seus problemas financeiros; foi o que consegui no Vasco."
Eurico faz um alerta para que os outros clubes do Rio não se deixem seduzir por propostas "não muito claras" de investidores estrangeiros. "Se tomarem o caminho do Corinthians
que vendeu o clube, vão piorar de vez a situação", assegura, referindo-se ao contrato do Alvinegro paulista com a Hicks@Muse.
O vice de Futebol do Fluminense, Francisco Horta, atribui o declínio do clube à crise política - três presidentes do Tricolor renunciaram ao cargo nos últimos seis anos - e ao "descalabro financeiro que ocorria havia cinco anos nas Laranjeiras".
Embora lamente a situação, Horta adota um discurso otimista para tentar arranjar meios que tirem o Fluminense da penúria. O primeiro passo foi renovar o contrato com a patrocinadora Unimed até o fim de dezembro, o que vai render R$ 700 mil ao clube. Uma parceria mais específica com empresas interessadas em contratos de co-gestão é refutada pelo vice-presidente do Tricolor, que repete as palavras de Eurico. "Não queremos vender o clube."
O futebol do Fluminense custa R$ 650 mil por mês e a dívida total do clube é de R$ 40 milhões. O atual homem-forte do Botafogo, o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, também considera preocupante o risco de isolamento de Vasco e Flamengo no topo do futebol carioca, mas acha mais plausível analisar a crise do Botafogo sob um contexto particular. "Estamos numa fase ruim, como ficou o Flamengo antes de o Edmundo assumir." Segundo Montenegro, que interviu no futebol do Botafogo com o apoio dos conselheiros e diretores alvinegros, a prioridade agora é "resgatar o clube do incêndio", numa alusão à péssima campanha do time no Brasileiro.

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