'Fisgado' no Pré, Raul Plassmann adota Londrina 'pro resto da vida'
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sábado, 26 de agosto de 2000
Claudemir Scalone De Londrina 
O Torneio Pré-Olímpico de Futebol, realizado em Londrina entre janeiro e fevereiro, incrementou a economia da cidade com a lotação de hotéis, gerou um maior faturamento para o comércio e, além disso, despertou paixões. Enquanto os garotos da Seleção Brasileira Sub-23 ralavam no gramado do Estádio do Café para conquistar a vaga para as Olimpíadas de Sydney, fora de dele o cupido andou a mil por hora. O Deus do amor flechou os corações do locutor esportivo Galvão Bueno, da TV Globo, e da empresária londrinense Desireé Soares, que já esperam o primeiro filho e em breve estarão se casando.
Quem também se viu atingido pela atmosfera do amor rolando na cidade foi o comentarista de TV e ex-goleiro Raul Plassmann, 55 anos. Fisgado pela londrinense Miltis, Raul adotou Londrina como morada definitiva. A tal ponto que firmou uma sociedade com André Marques, técnico e professor de Educação Física, e juntos acabaram de implantar na cidade o Centro de Treinamento e Escola de Futebol Raul Plassmann (leia texto nesta página).
A empatia com Londrina foi tão grande que Raul não tem planos de abandonar a cidade tão cedo. Saídas, só esporádicas para atender os compromissos com o canal pago SporTV, do qual é comentarista.
Escolhi Londrina pro resto da vida. Independente do sucesso da escola, estou feliz na cidade e daqui não saio nunca mais - revela Raul, que já tem endereço fixo e tem planos para o casamento com Miltis para o próximo ano.
Antes do Pré, Raul havia conhecido a cidade em curtas passagens.
Passei 23 dias na cidade e percebi as incríveis facilidades em caminhar tranquilo pelas ruas e se deslocar até as lojas para fazer compras - explica ele, ao comparar com o Rio de Janeiro, onde morava.
No Rio, apesar da beleza, tudo é muito difícil. Para se comprar uma camisa, é uma verdadeira odisséia.
O seu apego com Londrina está sendo tão forte que ele já está incorporando o sotaque pé-vermelho característico da região em seus comentários na TV.
Já estou falando porrrta, verrrgonha - brinca ele. Esses dias, durante um comentário, falando o nome do Athirson (lateral do Flamengo), acabei forçando a letra erre, sem perceber - conta ele, que tinha o costume de suavizar o erre depois de morar por longo tempo em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro.
O comentarista Raul critica o estilo atual dos jogadores da Seleção Brasileira, que rechaçam qualquer crítica e se sentem senhores da situação, como o meia Rivaldo. Para o ex-goleiro, não é interessante comparar os jogadores de agora com os do passado, como fez o meia-atacante do Barcelona:
São tempos diferentes. Hoje, temos o atleta que alia a força física para jogar futebol. No meu tempo, a gente era apenas jogador de futebol. A preparação física evoluiu muito. O Pelé, por exemplo, era um fenômeno e jogaria hoje. A grande pergunta que se deve fazer é se os jogadores atuais jogariam naquela época - analisa.
Segundo Raul, o grande problema hoje é que os jogadores mais famosos julgam estar acima de qualquer crítica.
Eles (jogadores) se sentem inatingíveis, tal como o superhomem, porque têm muito dinheiro. Muita gente diz que o Romário tem personalidade para desafiar técnicos e dirigentes. Eu também, com R$ 30 milhões no bolso, desafiaria qualquer um.
Raul é um dos que defendem a convocação apenas dos jogadores que atuam no Brasil para os jogos das Eliminatórias da Copa.
Seria mais lógico utilizar a base que atua no Brasil. Os caras que estão na Europa já conseguiram tudo e parecem estão jogando por obrigação. E não se integram ao espírito de seleção - opina ele.
A falta de um líder em campo também é um dos fatores apontados por Raul para a fragilidade da seleção nas Eliminatórias. Aquele capitão que orienta o time em campo e acalma os companheiros nos momentos mais críticos do jogo está extinto, segundo ele.
Hoje nem os clubes têm esse líder. O compra-compra e troca-troca de jogadores não permite a formação de um líder. Os líderes ficavam oito, dez anos num mesmo time e aprendiam a comandar. Hoje não dá tempo dele se firmar, a transição de equipes é muito rápida.
Raul faz um adendo sobre o chamado último grande líder da seleção, o volante Dunga:
Sem menosprezo ao Dunga, ele foi o mais bizarro capitão que a seleção já teve. Parecia um doberman em campo, gritando com todo mundo. Para ser um líder em campo, não é preciso gritar para se impor. Dunga não foi um líder, estava na posição de - critica ele, lembrando que Zico, Carpegiani e Júnior tinham o carisma necessário para liderar o Flamengo em sua época.
Por mais que o técnico grite fora do campo, quem segura a onda lá dentro é o líder.
O ex-goleiro diz que a permanência do técnico Wanderley Luxemburgo na Seleção Brasileira está por um fio.
Ele perdeu o fio da meada. Não sabe quem convocar. Ele não tem uma base porque troca os jogadores a toda hora e, por isso, não sabe qual time pôr em campo - analisa Raul.
Para ele, os problemas extracampo do treinador com a Receita Federal, a sonegação de impostos e a suposta cobrança de propinas na venda de jogadores complicam ainda mais a vida de Luxemburgo.
Isto ajuda a enterrar o cara - diz Raul, para quem a vaidade e o ego subiram à cabeça do técnico. Não dá para dirigir a seleção querendo absorver tudo. É preciso distribuir funções - diz ele, referindo-se ao poder centralizador de Luxemburgo.
Apesar de crise técnica e de comando na seleção, Raul acha que o País não ficará fora da Copa de 2002, que será realizada no Japão e na Coréia do Sul.
Mesmo com todos estes problemas, o Brasil vai se classificar para a Copa. O Brasil é surpreendente, como é próprio do latino: muito emotivo e sujeito a chuvas e trovoadas. O lado emocional, ao mesmo tempo em que complica as coisas, pode servir como fator de reação.
E aponta um exemplo:
Veja o Guga (tenista brasileiro que lidera o ranking mundial). Hoje está mais estável. Antes, ele era irregular por ser um cara que se emociona muito. Por outro lado, o lado emocional faz o cara tirar leite de pedra e vencer os jogos.


