Parecia difícil assimilar a realidade. Com os olhos prestes a marejar, o técnico Ênio Vecchi dividia-se em duas tarefas. Enquanto tentava explicar a eliminação do time dos playoffs do Campeonato Nacional a imprensa o incomodou como nunca dava atenção a uma pequenina torcedora que insistia em conseguir um autógrafo do treinador mais famoso da cidade. De repente, as entrevistas ficaram em segundo plano. A prioridade passava a ser os torcedores, que deram lições de fidelidade, mesmo quando o time já parecia entregue. O Londrina/Aguativa/Acil perdeu sim para o Universo/Ajax, ontem à tarde, no Ginásio Moringão, por 80 a 78, mas conquistou o coração de mais de quatro mil pessoas que estiveram no ginásio.
Após o jogo, evidentemente decepcionado com a eliminação, Vecchi confessou à Folha que esse time conquistou lugar especial em sua vida. ''Tenho muito orgulho em fazer parte dessa equipe, que nunca se entregou em momento algum do campeonato. Acreditávamos que o time poderia conquistar algo importante, mas entre achar e fazer há uma distância muito grande. Esse time é diferente, não desiste'', disse o treinador, em Londrina desde 1997, quando conduziu a equipe em sua primeira empreitada na primeira divisão do basquete brasileiro.
Com um sorriso discreto, detalhe marcante de sua personalidade, Vecchi fez questão de dividir com o torcedor os dividendos da campanha mais vencedora do basquete londrinense. Pela primeira vez, em sete anos de história, o Londrina avançou aos playoffs na quinta posição. ''Todos nós sempre jogamos por cada torcedor, mesmo nas partidas longe de casa. O pensamento era sempre esse. A torcida londrinense é muito especial, faz diferença... Esse quinto lugar é dos jogadores e também da torcida''.
Até mesmo como um mecanismo de desabafo, Vecchi recorda que teve de suportar a desconfiança no início do campeonato. Em franca decadência financeira após o rompimento com a Sercomtel, principal patrocinadora do time, o Londrina Basquete Clube (LBC) teve de montar um time barato, com jogadores sem muito glamour e experiência. Quase em uníssono, a crônica esportiva havia decretado o inevitável fracasso. ''Não tenho vergonha em dizer que fui surpreendido. A gente sabia que o time tinha potencial, mas fiquei assustado com a evolução no decorrer do campeonato'', disse.
A história vespertina do Moringão poderia ter tido um desfecho diferente, mais feliz. Faltando poucos segundo para o término do jogo, o ala Jefferson teve a chance de levar a decisão para a prorrogação. A bola não caiu. Na sequência, Fernando Mineiro pegou o rebote, mas os jogadores do Ajax não permitiram um novo arremesso.
O lance acabou despertando a ira do treinador londrinense. Após a partida, acusou o árbitro José Carlos Pelissari de perseguição. ''Naquele lance tiraram a bola do Fernando, alguma coisa aconteceu por lá. Com certeza, ele já estava pré-determinado a não mancar nada para a gente.''

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