Final do Brasileiro coroa retomada de clube após assassinato de técnico


JOÃO GABRIEL E LUCIANO TRINDADE
JOÃO GABRIEL E LUCIANO TRINDADE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ser finalista do Campeonato Brasileiro Feminino é um marco de recuperação para o Avaí-Kindermann. O adversário do Corinthians na decisão do principal torneio nacional quase teve sua história abreviada em 2015, quando uma tragédia levou os donos do clube a suspenderem suas atividades por tempo indeterminado.

Neste domingo (22), catarinenses e paulistas fazem o jogo de ida, às 20h, no estádio da Ressacada, em Florianópolis. A partida será exibida por Band, ESPN e no perfil @BRFeminino no Twitter. O duelo de volta está marcado para o dia 6 de dezembro, às 20h, na Neo Química Arena.



Há cinco anos, antes da parceria com o Avaí, o Kindermann viveu o assassinato do técnico Josué Henrique Kaercher. Ele foi morto a tiros por Carlos José Correa, ex-treinador de outra das equipes comandadas pela família Kindermann, o Pantera Negra. Segundo a Polícia Civil, a motivação foi vingança, após uma demissão por justa causa.

O crime ocorreu em um hotel que também pertence ao grupo familiar, no centro da cidade de Caçador (SC), sede do time e localizada a cerca de 400 km de Florianópolis.

Correa entrou armado no local, rendeu um funcionário na recepção e ordenou que outras cinco pessoas que trabalhavam na empresa fossem levadas a um escritório.

Uma delas foi Josué, que teria tentado acalmar Correa e acabou baleado no peito. Ele chegou a ser levado para um hospital, mas não resistiu.

Salézio Kindermann, 78, fundador e até hoje presidente do time, também estava entre os rendidos. Ele conta à reportagem que a tragédia poderia ter sido ainda maior. "Eu tinha 73 anos na época e, não sei como, mas voei de trás da mesa e tirei a arma da mão dele."

Segundo Salézio, Correa gritou que iria acabar com a história do clube. "Ele apontou a arma para mim, mirou, engatilhou, aí não sei porque virou e atirou no Josué. O Josué era como um filho pra mim."

No escritório, estavam também alguns parentes do presidente. O trauma levou a família a suspender as atividades esportivas. Correa foi condenado, preso e morreu em maio deste ano, após sofrer um AVC na cadeia.

"Eles precisavam desse período de reconstrução psicológica", diz a zagueira Tuani, 29. A atual capitã do time também estava no Kindermann naquela época e afirma que todo o elenco ficou abalado com o ocorrido. "Além de ser nosso treinador, o Josué era um amigo, como um pai."

O treinador rodou o país jogando como zagueiro, mas gostava mesmo de viver na cidade onde até 2014 defendia o Caçador Atlético Clube.

"Surgiu a proposta [do Kindermann] de virar técnico. O ano de 2015 foi o primeiro dele. Foi direto do profissional para treinar o feminino", conta Julio Kaercher, irmão de Josué, que o ajudava na carreira.

Naquela temporada, o Kindermann havia conquistado o primeiro título nacional de sua história, a Copa do Brasil, ao vencer a Ferroviária na decisão. Em 2016, disputaria sua primeira Libertadores, o que acabou não acontecendo.

Salézio também estava empolgado com as perspectivas, mas depois da tragédia foi convencido por sua família a dar um tempo do futebol, o que o deixou muito abalado. "Isso aqui é minha vida, eu me senti um lixo na época."

A pausa durou cerca de um ano. Em 2017, a CBF mudou a forma de disputa do Brasileiro Feminino e criou a Série A-2. Na elite, estariam os oito melhores times do ranking da entidade. O Kindermann, mesmo após um ano sem jogar, era o oitavo colocado.

"Minha família viu que eu iria morrer se não voltasse ao futebol", conta o presidente, que então decidiu que era hora de a equipe retomar as atividades. Mas antes foi buscar o apoio da família de Josué.

No fim de 2016, Julio recebeu uma ligação do dirigente. "Ele falou: 'estou pensando em voltar, mas por respeito à sua família, gostaria de saber sua opinião'. No primeiro momento eu já falei: 'acho que tem que voltar'. Como tinha uma ligação muito forte com meu irmão, tentei pensar o que ele pensaria."

Em 2017, o Kindermann alcançou as quartas de final do Brasileiro, fase na qual acabou eliminado pelo Rio Preto. No fim do ano, veio a conquista do Catarinense, o 9º dos 11 que acumula em sua história.

Convidada a retornar ao time após ir para a Ferroviária, Tuani fez parte das campanhas vitoriosas nos estaduais de 2017, 2018 e 2019. Para ela, que morou nos alojamentos da agremiação, essa é a sua segunda casa. "Eu gosto muito da cidade e do clube. E aqui eu tive a possibilidade de fazer uma faculdade, pela parceria do Kindermann com uma universidade", ela diz.

Tuani está no último semestre de Educação Física na Uniarp (Universidade Alto Vale do Rio do Peixe). "Todas as meninas do Kindermann têm bolsa de estudos e carteira assinada. As meninas que não tinham a chance de fazer uma faculdade saem daqui graduadas", orgulha-se Salézio.

No ano passado, o dirigente firmou uma nova parceria, desta vez com o Avaí. Da união nasceu o Avaí-Kindermann. A equipe de Florianópolis, que neste ano disputa a Série B masculina, fornece uniformes e apoio financeiro ao time do interior do estado.

O elenco treinado por Jorge Barcellos teve três atletas chamadas na última convocação da seleção brasileira, pela técnica sueca Pia Sundhage: a goleira Bárbara, 32, e as meias Duda, 24, e Júlia Bianchi, 23.

Salézio brinca que seria imbatível se tivesse o orçamento dos grandes paulistas, mas que mesmo assim conseguiu chegar mais longe que São Paulo (que eliminou nas semifinais), Palmeiras e Santos. "Agora falta o Corinthians."

Estádio: Ressacada, em Florianópolis (SC)

Horário: 20h (de Brasília) deste domingo (22)



Transmissão: Band e ESPN

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