São Paulo - Os problemas enfrentados pelos atletas durante e depois da carreira na NBA são bem semelhantes aos dos atletas brasileiros do futebol. Como a maioria dos jogadores de basquete nos Estados Unidos, os profissionais da bola do Brasil têm origem humilde e ainda muito jovens precisam mostrar serviço em campo, ao mesmo tempo em que assumem responsabilidades como sustentar a família. O psicólogo do São Caetano, Antônio Carlos Simões, e o técnico Mário Sérgio Pontes de Paiva conhecem esta realidade.
O treinador, que também foi jogador, acredita que a tese da psicóloga Cristina Versari, de que o desenvolvimento emocional dos atletas pode ser afetado pelos sacrifícios a que eles têm de se submeter em função da carreira, pode ser aplicada ao futebol brasileiro. ''Falo por mim mesmo'', disse Mário Sérgio. ''E o pior é que no basquete americano os atletas costumam ter formação universitária que pode lhe dar perspectiva. Aqui no Brasil, isso é raridade''.
O treinador afirma que a rotina do futebol deixa suas marcas. ''Teoricamente, a fase onde você teria os melhores momentos da sua vida você fica sem sair. Tudo bem que era por um objetivo, mas fica uma sequela que muitas vezes, lá para frente, muitos anos depois, a seu inconsciente vai cobrar''.
O psicólogo Simões diz que a realidade dos jogadores, especialmente os de origem humilde, é de muita pressão. ''Muitos garotos, muito jovens, já tem a obrigação de adultos, como sustentar toda a família. Entram em campo com a ideia de que não podem falhar''. Para piorar, segundo ele, não tem uma segunda opção, caso a carreira de jogador não seja bem sucedida.
Mário Sérgio diz que o problema se torna mais sério atualmente porque o atleta bem sucedido é paparicado. ''Existem dirigentes que criam verdadeiros monstros. Deixam o atleta fazer o que quer'', reclamou. ''O jogador precisa de alguém que imponha limites, que mostre que é preciso ser profissional'', disse. ''Se ele é um artista em campo, alguém tem de mostrar que fora dele, é um empregado''.
O treinador diz que a maioria dos atletas não planeja o futuro. ''Você nega, protela ao máximo para pensar em parar''. E depois que as chuteiras são penduradas, começam os problemas. ''Muitas vezes você investe, perde tudo e aí começa a se acovardar. É o momento em que muitos se apegam à bebida e as drogas''.
Iniciar uma nova carreira é difícil. ''Fui muito atacado por um corporativismo exacerbado dos jornalistas quando comecei a carreira de comentarista na TV. Eles te veem como um paraquedista e torcem para que você se dê mal, acabe na sarjeta. É até meio sádico'', conclui o treinador, que acha válido a busca de um profissional, como um psicólogo, para superar essa fase de dificuldades. (V.Z./A.E.)

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