Johannesburgo - Apesar de se dizer aberta a debater a introdução da tecnologia no campo, a Fifa adota uma linha dura, censura as conversas de árbitros com jornalistas e blinda sua organização de críticas. Ontem, a Fifa organizou um encontro de jornalistas com os árbitros. Sintoma da crise que vive a arbitragem, o evento recebeu mais de 500 jornalistas de todo o mundo. Mas a Fifa decidiu manter em total isolamento os árbitros envolvidos nas polêmicas do último domingo - o uruguaio Jorge Larrionda e o italiano Roberto Rosseti.
Antes de permitir o contato dos jornalistas com os juízes, a Fifa reuniu os 30 árbitros e 60 bandeirinhas que estão na Copa para informar que qualquer comentário sobre tecnologia ou sobre incidentes em campo estavam vetados. ''A Fifa nos proibiu de falar de decisões tomadas em campo e da tecnologia. É uma decisão de cima'', afirmou o brasileiro Carlos Eugênio Simon, que já apitou dois jogos no mundo e insistiu que o clima entre os árbitros continua ''muito bom''. Questionado então sobre o que poderia falar, Simon ironizou: ''vamos falar do Mandela''.
Nem Simon nem os demais árbitros sequer tinham a coragem de confirmar que Larrionda e Rosseti não estavam no evento com eles. A censura não se limitou aos problemas do domingo passado. Koman Koulibaly, árbitro do Mali que misteriosamente não marcou o gol do que seria a virada dos Estados Unidos contra a Eslovênia, se recusou a comentar o motivo de ter anulado o gol.
Questionado qual foi a irregularidade, Koulibaly apenas disse que ''não estava preparado para dar uma resposta''. Segundo ele, a única obrigação que tem é de informar à Comissão de Arbitragem, que o procurou para debater o assunto. Mas admite: não deve mais apitar jogos na atual Copa.
Entre os árbitros, há posições diferentes sobre o uso de tecnologia. ''Na era da internet e da alta tecnologia, não há como a Fifa se isolar'', disse o bandeirinha brasileiro, Altemir Hausman. Mas há quem seja abertamente contra o uso de tecnologia. ''A segurança da arbitragem é sua capacidade, não a tecnologia'', disse o árbitro colombiano Oscar Ruiz.
O suíço Massimo Busacca é ainda mais explícito. ''Só vai complicar mais a situação'', afirmou. O sueco Martin Hansson insinua que a profissionalização dos árbitros seria tão importante como a tecnologia para melhorar a qualidade das decisões. ''No meu desenvolvimento, esse foi um grande passo'', disse. Hansson foi quem ignorou a mão do atacante francês Thierry Henry no jogo que classificou o time para a Copa do Mundo. Um empate tiraria a França da Copa e a Irlanda estaria no Mundial.
Já o inglês Howard Webb, que apitou a vitória do Brasil sobre o Chile, na última segunda, preferiu jogar a responsabilidade para a Fifa. ''Vou usar o instrumento que me derem para apitar'', disse Webb. ''Só espero que isso não mude a natureza do jogo''.

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