Manama (Bahrein) - ''Correntinha de ouro, legítimo, pode? Piercing na orelha, nem pensar, não é? Ah, e esse meu relógio, olha que classe, presente do patrocinador, dá para usar?'' É possível que essas tenham sido algumas das perguntas dos pilotos, ontem, para o inspetor de segurança da Fórmula 1, Charlie Whiting, depois de a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) proibi-los de competir usando relógios com pulseira e caixa de metal, anéis, pulseiras e correntes. O motivo alegado é poderoso, segurança. A norma até que seria bem vinda não fosse um porém: para alguns pilotos essas jóias são, também, seus amuletos.
O GP de Bahrein começa hoje, com duas sessões de treinos livres, sob calor intenso. É enorme a expectativa quanto a uma eventual reação da Ferrari no campeonato, já que irá estrear o esperado modelo F2005, mas pode ser que para alguns pilotos, ao menos o fim de semana no circuito de Sakhir, em especial, lhes cause apreensão. Irão correr, pela primeira vez, sem os seus amuletos.
''Sim, é verdade, tenho de aceitar'', afirmou, Michael Schumacher. Com certeza irá relutar, antes de entrar no cockpit do seu carro, em retirar a correntinha que sempre o acompanha, com uma medalhinha de ouro contendo os nomes dos filhos Ginna Maria e Michael, e da esposa, Corinna, numa das faces. ''Na outra há a lua e algumas estrelas'', explica. ''Regras são regras e devem ser seguidas. Terei de enfrentar essa situação'', disse o alemão, supersticioso, que só entra do cockpit pelo lado direito.
Schumacher apareceu no autódromo ontem com uma tatuagem de henna, no braço direito: ''É um pássaro, desenhado pelo meu filho'', contou. Jarno Trulli, da Toyota, abordou a proibição da FIA: ''Fiquei surpreso, o que nos disseram é que em caso de fogo o metal aquece rápido e pode nos causar sérios danos. Aceitei. Não vou usar mais no pescoço minha correntinha com a aliança enquanto piloto.''
O doutor Riccardo Ceccarelli, proprietário de uma das mais conceituadas clínicas de estudos médicos voltados para a atividade de piloto, Formula Medicine, em Viareggio, Itália, alerta que a medida pode, potencialmente, desestabilizar emocionalmente esses profissionais: ''Há quem associe os objetos a estar vivo ou conquistas. De repente sua ausência pode criar um desconforto muito grande, insegurança, no piloto.'' O universo das forças ocultas no frio mundo da Fórmula 1 é muito mais ativo do que se imagina.
Cueca vermelha Outros exemplos de comportamentos dessa natureza: Rubens Barrichello correu, não se sabe se ainda mantém o hábito, por muito tempo, com cueca vermelha. David Coulthard venceu uma corrida quando jovem com uma cueca velha e a repetia até ainda na Fórmula 1. ''Uma vez me levaram para o ambulatório, depois de um acidente, e na ambulância eu pensava no vexame de expor aquela cueca velha'', contou o escocês.

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