São Paulo - Gil de Ferran tinha um sonho secreto no automobilismo que nunca será realizado: pilotar o Reynard/Honda 2001 da Penske no antigo traçado de Interlagos. Os dois não existem mais. A parceria Reynard e Honda acabou em 2001 e a pista de Interlagos foi modificada e reduzida em 1989. E Gil, por sua vez, havia anunciado no mês passado que abandonaria as pistas no final da atual temporada da Indy Racing League (IRL).
''A melhor pista que eu conheci estava ali, quase na esquina da minha casa. Infelizmente, não corri nela com um carro potente. No máximo, um Fórmula Ford'', disse o piloto brasileiro.
Sobre o Reynard/Honda que pilotou na conquista do bicampeonato da Cart em 2001, Gil só tem boas lembranças. ''Era um carro fantástico. Tinha muitas peças exclusivas, era fácil de dirigir e uma potência incrível de 900 cavalos'', elogiou.
Gil disse que tomou a decisão de parar de correr em julho. Foram 21 anos de automobilismo, desde o kart em 1982, com 343 corridas (serão 344 até o final da atual temporada) e 56 vitórias nas pistas. Avisou apenas a família e a equipe para buscar outro piloto. Seu companheiro na Penske, o também brasileiro Hélio Castro Neves, só foi informado mais tarde.
''Se eu fosse egoísta, pegava o chapéu depois da última corrida, me despedia de todo mundo e ia embora. Mas eu não faria isso. A equipe tem que pensar no futuro. Felizmente, o Roger Penske conseguiu contratar um excelente piloto, o Sam Hornish'', explicou o bicampeão da Cart.
Antes da aposentadoria, Gil briga pelo título da IRL. Ele está em quinto lugar no campeonato com 437 pontos. O líder é seu companheiro Helinho, que tem 467, ao lado do neozelandês Scott Dixon. ''Ainda tenho chances. O ideal era que eu ganhasse as três últimas corridas e terminasse a carreira como o primeiro brasileiro a conquistar um título da IRL. Mas não vai ser assim'', admitiu.
A aposentadoria não é um indício de que ele poderá facilitar na prova de hoje. ''Estou no auge. Sou tão rápido como no passado. Mesmo depois de ter tomado a decisão de parar, em julho, venci a corrida de Nashville. Vou dar o máximo nesta última prova. Pode ficar certo disso'', avisou Gil.
Ao contrário do poderia se esperar, Gil não escolheu a vitória nas 500 Milhas de Indianápolis, ocorrida nesse ano, como seu maior momento na carreira. ''É claro que não esquecerei mais a emoção de vencer em Indianápolis. Mas meu maior orgulho foram algumas pessoas especiais que conheci no automobilismo. Amigos como Amandio Ferreira, o 'Gigante'; o Johnny Von Christian, o Jackie Stewart, o Paul Stewart, o Derek Walker, o Jim Hall, que me trouxe para correr nos EUA, o Roger Penske e tantos outros. Esse é o meu maior lucro desses anos de automobilismo'', lembrou.
Por enquanto, Gil de Ferran ainda não escolheu o que fará a partir de novembro. Não sabe se continuará morando com a família em Fort Lauderdale, na Flórida, ou se volta para o Brasil. Ele também pretende continuar ligado ao automobilismo, aproveitando a experiência que acumulou. Mas não definiu que função poderá exercer daqui para a frente. ''E como estou concentrado nas corridas, não vou tomar nenhuma decisão agora. A única certeza é que pilotar não será mais meu foco principal.''

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