Felipão: ''Vivo em função da Copa''
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domingo, 13 de janeiro de 2002
Agência Estado 
São Paulo - O técnico Luiz Felipe Scolari já se sente na Copa do Mundo. A menos de cinco meses da estréia do Brasil no Mundial da Coréia do Sul e do Japão, contra a Turquia, dia 3 de junho, em Ulsan, na Coréia, o treinador admite que já vive em função da Copa. É com o que estou me preocupando a todo momento. Estou me preparando espiritualmente para a Copa, como se eu já estivesse vivendo o clima da competição, disse ele. Sei o que me espera quando começar para valer a preparação para a Copa. Por isso, ultimamente tenho ficado mais tempo com minha família para tentar compensar a falta que eu sentirei deles durante a competição.
O treinador do Brasil ocupa boa parte do tempo assistindo e analisando os teipes dos três primeiros adversários da seleção na competição, mantendo contatos com seus informantes sobre as condições dos jogadores selecionávies e discutindo sempre a estratégia para o Mundial com seus auxiliares, principalmente com Flávio Teixeira, o Murtosa, seu fiel escudeiro. Além da Turquia, o treinador diz ter farto material sobre a China e a Costa Rica.
Scolari tem se esquivado de dar entrevistas no dia-a-dia, justamente para evitar que suas declarações sobre determinado assunto possam ser exploradas de forma sensacionalista. Recentemente, ao ser perguntado sobre as qualidades do atacante Deco, do Porto, o treinador admitiu que estava em poder de algumas fitas sobre as últimas partidas do atleta para serem observadas. Foi o suficiente para que dissessem que o atacante do Porto poderia estar na seleção para os próximos amistosos.
O número do aparelho celular de Scolari, por exemplo, é passado para um grupo restrito de pessoas. Mesmo assim, ele tem o cuidado de mudar o número a cada mês para evitar que se torne de domínio público na mão da imprensa, dirigentes e empresários de futebol. Além da Assessoria de Imprensa da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Scolari conta com uma outra assessoria, particular, que lhe permite colocá-lo a par de tudo o que está sendo divulgado pela mídia sobre sua participação na seleção.
Luiz Felipe Scolari nasceu em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, em 9 de novembro de 1948. Começou a carreira como zagueiro do Aymoré, de São Leopoldo, aos 19 anos. Em 1973, foi para o Caxias, de Caxias do Sul. Em 1976 disputou seu primeiro Campeonato Brasileiro. Jogou ainda no Novo Hamburgo e Juventude, também equipes gaúchas, e posteriormente no CSA de Alagoas, até encerrar a carreira aos 32 anos. Durante o período de atleta, formou-se em Educação Física.
Em seguida, Scolari começou a carreira de treinador no Brasil de Pelotas, levando o time à terceira colocação do Campeonato Gaúcho. Depois foi para o Al Shabab, da Arábia Saudita, onde ficou dois anos. Na volta ao Brasil, dirigiu o Grêmio, conquistando o primeiro título de campeão gaúcho em 1987. Foi o início de uma carreira vitoriosa, somando 15 títulos oficiais. Scolari assumiu a seleção no dia 12 de junho de 2001.
Agência Estado Você confirma que está com o grupo de jogadores definido para a Copa do Mundo?
Luiz Felipe Scolari Tenho 70% do pessoal já selecionado. Evidentemente, é a base do time que disputou as Eliminatórias. Claro que há dúvidas, por isso estou observando tudo, acompanhando o que está ocorrendo com os jogadores que poderão entrar na lista.
AE Isso significa que vários jogadores estão com a situação tranquila, já com a vaga garantida na seleção?
Scolari Garantido, garantido, não. Ninguém pode se acomodar até o dia da convocação final. O nome não garante a vaga, pode ter certeza. Quem não estiver atuando na melhor da sua forma ideal, perderá o lugar. É preciso manter a qualidade, sem se acomodar ou se poupar achando que está com o lugar certo na seleção, mesmo tendo participado da maioria dos jogos desde que assumi a seleção.
AE Quer dizer que jogadores como Alex, ainda sem futuro definido, e Vampeta, que não sabe como ficará sua situação no Flamengo (ele acertou contrato com o Corinthians na sexta-feira), correm o risco de ficar fora da Copa?
Scolari Eu tenho de convocar quem estiver em plena atividade, no auge da sua forma. Quem não estiver jogando ou até demorar para voltar a atuar poderá realmente perder a disputa na seleção. Volto a dizer que ninguém está garantido. Poderá haver exceção para os casos de contusões. De repente, um jogador, que está nos meus planos para a Copa, lá para a frente se machuca. Aí, precisamos analisar seu tempo de recuperação. Como ele estará até o Mundial, essas coisas. Se tiver condição para participar da Copa, a contusão não vai tirá-lo da lista, não.
AE Ronaldo se encaixa nessa situação?
Scolari Isso mesmo. Tenho acompanhado sua evolução e essa contusão recente não deverá prejudicar sua recuperação para a Copa. Claro que espero contar com ele.
AE O que mais se tem ouvido ultimamente é que a CBF está organizando mal o esquema para a Copa do Mundo. Até agora não há ainda um planejamento correto para a seleção. Como você encara esse tipo de crítica?
Scolari Isso não é verdade. Estão falando muita coisa errada. Está tudo caminhando bem. A CBF nos tem dado total apoio. Tanto a diretoria da entidade como a nossa comissão técnica estão há tempo trabalhando com vistas à Copa. Não vejo nada de errado, não. -
AE Por exemplo, os amistosos como preparação para o Mundial e o início da fase de treinamentos já estão definidos?
Scolari Nosso plano é realizar pelo menos seis amistosos até a estréia na Copa. Dois adversários estão definidos, ambos no exterior: seleção da Catalunha, em março, e Portugal, no mês seguinte. Antes, deveremos ter um amistoso no fim do mês e também um outro antes do Carnaval, lá pelo dia 6. Não quero deixar a seleção sem atividade nessa época.
AE Você considera importante ouvir os técnicos do futebol brasileiro para tirar algumas dúvidas, ou vai trabalhar sozinho até o dia da convocação final? Como você está organizando essa parte? Carlos Alberto Parreira, agora no Corinthians, disse que está pronto para colaborar.
Scolari Estou organizando um esquema para reservar uns três dias de cada semana para assistir aos treinos dos principais clubes do futebol brasileiro. Observar mais de perto seus jogadores e conversar com os técnicos. Vou começar aqui no Sul, com o Grêmio e Internacional. Quanto ao Parreira, claro que pretendo contar com a sua colaboração. Aliás, ele já está nos ajudando. Deixei o Antônio Lopes para falar com o Parreira sobre a Turquia. Ele trabalhou lá, pode passar boas informações. O Lopes é quem está falando com o Parreira, porque os dois se conhecem do futebol carioca. O Júnior Baiano, que atuou na China, e o Casemiro, um ex-jogador do Grêmio, que também trabalhou por lá, vão me dar informações valiosas sobre esse adversário.
AE Quando vai começar a fase de treinamentos para a Copa?
Scolari Olha, isso vai depender em primeiro lugar dos campeonatos aqui no Brasil. Não temos exatamente uma data definida. Mas acho que daqui a uns três meses já podemos começar a chamar alguns jogadores para começar a trabalhar com o Paulo Paixão (preparador físico) e o José Luís Runco (médico). Podemos viajar lá pelo dia 12 de maio para a Coréia. Assim, haverá tempo de adaptação ao fuso horário. Só quero deixar bem claro: assim que a gente tiver o grupo de atletas convocados, não vamos liberar ninguém para nenhum tipo de competição, como fiz anteriormente. Agora é a Copa do Mundo.
AE Pelé andou dizendo que gostaria de ver na seleção a volta do futebol-arte. O que acha dessa declaração?
Scolari - Futebol-arte é importante desde que o time consiga seu objetivo. Claro que eu gosto de ver futebol-arte, mas alcançando resultados. Já tivemos exemplos de seleção brasileira que deu espetáculo, mas não foi campeã. Não vejo tudo espetacular nas firmas de Pelé, mas mesmo assim ele não deixa de ganhar dinheiro.
AE O Brasil entra na Copa como favorito?
Scolari A seleção vai para a Copa em primeiro lugar com o pensamento de conseguir a classificação para a fase seguinte. Se der para ser o primeiro do grupo, ótimo. O ideal é garantir a vaga sem ter de depender do último jogo. Agora, não quero que apostem no Brasil como favorito ao título, não. Isso não é bom.
AE A CPI pode ainda ser um fantasma para a seleção, principalmente no caso de o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, ser mesmo punido?
Scolari Sinceramente, nunca fiquei preocupado com isso. Desde o início do meu trabalho ele me disse: Cuide da seleção, que da CPI eu me defendo.
AE Depois da Copa do Mundo, qual será seu destino?
Scolari Estarei livre para trabalhar em qualquer lugar e qualquer clube. Acho que não me vai faltar proposta, independentemente do resultado da seleção no Mundial. Mas, sinceramente, é assunto que não me preocupa agora. Quando vim para a seleção sabia do risco que havia de o Brasil ficar fora da Copa, o que isso poderia pesar para todo mundo. Agora, tudo mundo está esperando o título.
AE Como analisa o futebol brasileiro, com treinadores e jogadores baixando os salários?
Scolari Essa é a realidade. Os clubes não podem pensar só em ganhar campeonatos. Não podem também ficar devendo o resto da vida.


