Feira reúne aventureiros de todo país
Aventureiros dos quatro cantos do país encontraram-se entre os dias 8 e 12 de novembro no maior evento de aventura da América Latina, o Adventure Sports Fair 2000, realizado no Pavilhão da Bienal do Ibirapuera, em São Paulo. Gente que conheceu o mundo à pé, escalando, a bordo de um jipe, veleiro, avião e até mesmo num fusca! - como o carioca Sérgio Zurawel que pilotou o seu de Angra dos Reis a Ushuaia, extremo sul do continente. Não importa o meio nem a verba disponível, todos tem o mesmo objetivo: vivenciar intensamente suas passagens por este mundo, perseguindo horizontes... Após um grande sacrifício, a natureza sempre nos recompensa com um momento mágico, ensina Jossandro Saldanha, autor do livro Viajando o Mundo com US$ 7,50 por dia.
Em sua segunda edição, o evento deste ano reuniu 160 expositores numa enorme feira, de 25 mil metros quadrados, e organizou, paralelamente, 72 palestras num congresso, no qual viagens e experiências foram passadas em emocionantes relatos e imagens fantásticas desta nossa Terra Mater.. A aventura pode ser louca, o aventureiro não, lia-se numa parede do setor, sugerindo a necessidade de discutir temas técnicos, como: planejamento na aventura, normas de segurança, a integração do esporte com a natureza, ecoturismo, oportunidades do mercado e apresentações sobre as diversas modalidades e equipamentos.
Principais Atrações
Durante os cinco dias, setenta mil visitantes puderam sentir de perto grande parte dos esportes da natureza, experimentando em módulos artificiais escaladas em paredes indoor (local coberto), rapel e tirolesa (descendo do terceiro ao primeiro piso do pavilhão), remadas em botes de rafting, o incrível túnel de vento (simulando a queda livre no pára-quedismo), off-road numa equipe Land Rover... Enfim, conhecendo e se apaixonando pelos diferentes esportes de aventura num imenso centro de exposições.
Novos esportes e destinos de ecoturismo foram apresentados. Vindo do distante arquipélago havaiano, o milenar esporte Outrigger, chamou bastante a atenção do público presente. Consiste numa enorme canoa, de 45 metros, com capacidade para 6 remadores, ainda com a opção de adaptar uma vela em seu casco. Outra atração: uma asa delta, um motor e um bote inflável deram vida à nova modalidade híbrida, o Flying Boat. Não é difícil imaginar o expositor carioca Renato Guimarães deliciando-se num vôo panorâmico sobre a cidade maravilhosa... A bela orla marítima do Rio serve como pista de decolagem e pouso para o piloto. Mais uma modalidade que chega ao Brasil é o Hidro Speed, lançado na feira pela empresa de rafting paulista Canoar. O novo esporte está sendo considerado como o bodyboarding dos rios: é uma prancha de espuma altamente resistente, com proteções laterais, usada para descer corredeiras. O uso de capacete e colete salva-vidas torna-se obrigatório.
Já para os que foram à feira em busca de novos equipamentos, o evento não decepcionou. A variedade de empresas por esporte satisfez os visitantes mais exigentes, embora faltassem preços promocionais, comuns em feiras deste porte. Mesmo assim, encontravam-se produtos para todos os bolsos. Neste quesito uma bike roubou a cena: o stand da importadora KS2 exibia com destaque a Kona Stab Primo, bicicleta de alumínio própria para o downhill (descida de montanha), equipada com freio a disco nas duas rodas, amortecedores central e dianteiro, valendo a bagatela de 16 mil reais...
O turismo de aventura e o ecoturismo abocanharam grande parte dos stands, confirmando que são atividades em franca expansão no mercado brasileiro. Destinos como Bonito (MS), Lençóis Maranhenses, Jalapão (TO), Cânions Gaúchos, Brotas (SP), Patagonia, Cordilheira dos Andes, Tibet, África, entre tantos outros espalhados mundo a fora, foram apresentados sempre combinados com esportes de aventura (treking, rafting, rapel, canyoning, etc). As pessoas procuram opções de lazer mais criativas, justifica Sérgio Franco, organizador do evento. Vale salientar a importância da prática responsável do turismo de aventura. A dica é viajar em grupos reduzidos (com até dez pessoas) com o intuito de diminuir a agressão ao meio ambiente.
Para surpresa de nossa equipe, a participação paranaense na feira foi inexpressiva. Vários foram os atletas do estado prestigiando o evento como visitantes. Com exceção da Snake (fabricante especializado de calçados) e algumas poucas empresas, faltou a presença dos setores de esporte, turismo e outros bichos do Paraná. Com a diversidade natural e a safra de campeões consagrados em várias modalidades (skate, surf, montanhismo, ciclismo, entre outros), ficamos sem entender a ausência do estado no evento. São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Rio Grande do Sul foram os que mais apareceram.
Questão Ambiental
A grande preocupação de biólogos e ecologistas diz respeito ao impacto ambiental que os esportes radicais exercem nos ecossistemas. Sem dúvida, a ação existe. É imprescindível seções de educação ambiental no turismo, cursos e eventos do setor. As empresas e atletas devem agir com responsabilidade e servir como exemplo para iniciantes, simpatizantes e até para outros setores sociais. Um ponto positivo colocado nos debates foi a participação da população local em grandes competições. Em Brotas, São Paulo, anualmente realiza-se um super evento de corrida de aventura. A comunidade da cidade experimenta aulas sobre alguns esportes e aprendem sobre a importância da preservação do meio ambiente. Assim, começam a atuar como agentes fiscalizadores orientando atletas e turistas sobre as normas ambientais. Esta integração também ocorre em vários pontos explorados pelo turismo de aventura.
Mercado em ascensão
Durante o evento Sergio Franco, um dos sócios organizadores do Adventure Fair, nos cedeu esta entrevista exclusiva:
Folha Aventura Quais foram os números do Adventure Fair deste ano?
Sérgio Franco Praticamente todos os esportes de aventura estão representados. A grande maioria dos expositores são brasileiros. Para esta edição aumentamos a área para 25 mil metros quadrados e recebemos a visitação de 71 mil pessoas. No ano passado, numa área menor de 15 mil m2, compareceram na feira 42 mil visitantes. O faturamento estimado fornecido pelos próprios expositores em 99 ficou em torno dos 20 milhões de reais; a expectativa para este evento é de que o valor dobre. Esta diferença se deve a três fatores: ao crescimento do mercado de esportes de aventura no Brasil, que aumenta 25% ao ano, às pessoas que vieram no ano passado e incentivam conhecidos a conhecer a feira e à divulgação deste ano que foi mais ampla em todo o Brasil.
Folha - Quais são os atrativos dos congressos?
Franco- Das 72 palestras a mais procurada pelo público leigo, que compõe 90% dos visitantes, foram as ministradas pela Família Schurmann, que velejou ao redor do mundo e pelo escalador paranaense Waldemar Niclevicz, relatando sua recente conquista do K2. Atribuo esta procura à exposição massiva dessas aventuras na mídia. Já o pessoal especializado optou mais pela discussão do impacto ambiental dos esportes de aventura e a questão da segurança.
Folha - O que atrai as pessoas à feira?
Franco - A idéia é a seguinte: hoje há uma tendência, não só brasileira como mundial, das pessoas procurarem opções de lazer mais criativas, em contato com a natureza e com outras pessoas, sempre algo que envolva alguma descoberta. As pessoas se preocupam muito com o seu tempo livre, buscam uma atividade que traga emoção, além de simplesmente ser contemplativa.
Folha - Como surgiu a idéia do evento?
Franco - Descobri o mundo da aventura há quatro anos. Comprei um jipe, comecei a fazer algumas trilhas e encontrei muitos amigos. Recentemente, com minha esposa, conhecemos os esportes aéreos, experimentamos um ultra-leve e hoje já estamos pilotando. Isto ampliou o nosso círculo de amizades. Meu sócio, Sérgio Bernardi, gosta dos setor aquático, praticante assíduo de rafting. Me pergunto: se funcionou para nós, porque não promover este espírito para mais gente e incluí-los neste mundo maravilhoso da aventura? Vamos chamar aventureiros e realizar palestras, realizar cursos para as pessoas aprenderem, disponibilizar veículos para que cheguem a lugares mágicos, trazer empresas que organizam grupos de ecoturismo em diferentes destinos. Se uma pessoa tem tendência ou necessidade de mudar o seu lazer e torná-lo mais criativo, encontrou nesta feira uma imensa variedade de opções. Só não entra neste mundo quem não quer.
Folha - O que se espera deste mercado?
Franco - Vivemos um momento muito especial. O mercado de esporte aventura, ecoturismo e o turismo aventura pode revolucionar a economia brasileira. Isto já é uma realidade na Nova Zelândia e na Austrália. Chile e Argentina estão bem desenvolvidos nessa área, que já representa uma boa parte do PIB desses países. O Brasil começou a descobrir o negócio agora, e é o que mais tem potencial: é dono do maior litoral, com praias paradisíacas, tem a maior floresta tropical do mundo, chapadas, dunas, Cataratas do Iguaçu, o Pantanal... Nenhum país tem uma diversidade tão grande como o nosso. Precisamos unir esforços com o governo para divulgar nossas qualidades para o exterior. É importante receber melhor os turistas estrangeiros, com uma infra-estrutura hoteleira adequada, guias e sinalização dos locais em inglês.Reportagem Andrés Baró
Fotos: Rodrigo Bellé





