Matheus García, que começou a torcer pelos merengues por influência do avô espanhol, destaca o futebol técnico do time do coração
Matheus García, que começou a torcer pelos merengues por influência do avô espanhol, destaca o futebol técnico do time do coração | Foto: Anderson Coelho



A final da Liga dos Campeões, entre Real Madrid e Liverpool, com início marcado para as 15h45 (horário de Brasília) deste sábado (26), evidencia um fenômeno: cada vez mais torcedores brasileiros optam por acompanhar equipes europeias em detrimento dos times do País. Segundo pesquisa recente divulgada pelo Ibope/Repucom, o interesse dos brasileiros pela Liga dos Campeões cresceu 13% em quatro anos. Em 2017, cerca de 43% dos brasileiros se declararam fãs do principal torneio de clubes da Europa.

O fenômeno não tem previsão de ser revertido; pelo contrário, a expectativa é que ainda mais torcedores brasileiros passem a acompanhar fielmente clubes do exterior – e não apenas competições específicas, como a Liga dos Campeões.

"Existe a questão do produto e do espetáculo, que é muito bem trabalhado em termos de ter boa equipe, ter bom estádio, um jogo bonito, bem apresentado, um gramado em boas condições, uma liga com boas condições, coisas para que as pessoas frequentem os estádios. São ídolos mundiais, ajudam a ter essa questão de pertencimento das crianças, de quererem fazer parte desse mundo global do futebol", aponta Virgílio Neto, mestre em gestão esportiva e colunista do site Universidade do Futebol. "O que é feito no Brasil não é tão eficiente quanto lá fora, então clubes, ligas, campeonatos precisam se voltar mais para o mercado e querer buscar mais esses torcedores e sensibilizá-los. Isso não vem sendo feito."

A final da Liga dos Campeões da atual temporada não irá mexer com os brios apenas de ingleses e espanhóis – países dos times protagonistas da decisão deste sábado em Kiev, na Ucrânia. Torcedores brasileiros fiéis às duas equipes também estão ansiosos com a partida.

"Desde que confirmamos a passagem para a final da Champions, eu não consigo fazer mais nada no meu dia. Eu tinha duas provas na faculdade que eu fiz no puro chute, porque eu não conseguia estudar, não conseguia me concentrar", revela Luiz Felipe Gomes, 18 anos, estudante de educação física e torcedor do Liverpool. "Se tornou uma parte tão grande da minha vida que eu não faço nada que não envolva o Liverpool. Meu guarda-roupas tem muito vermelho e branco, meu celular é cheio de cantos da torcida."

Gomes também é torcedor do Santos, mas garante: não existe comparação entre o que sente pelos Reds e pelo Peixe. Faz uma analogia familiar para explicar o sentimento: enquanto o Liverpool é um parente amado, o Santos seria um parente distante. "Minha relação com o Santos é de entretenimento. Eu sempre tive familiares (santistas), inclusive meu tio, que é fanático, sempre me deu camisas do Santos, quer muito que eu torça pelo clube. Como eu sou muito da cultura da arquibancada e não consigo ir ao Anfield, é importante ter um clube aqui que eu possa acompanhar no estádio, pelo menos de vez em quando. Eu gosto da atmosfera, mas não é a mesma coisa."

Sem time no Brasil: 'clube de verdade' é o estrangeiro
"Comecei a acompanhar em 2008, o primeiro jogo que eu vi foi Real Madrid x Deportivo La Coruña, pelo Campeonato Espanhol. Então já são mais de dez anos acompanhando a equipe", revela Kamilly Medeiros, 22, estudante de direito. "Eu acho que é injusto quem fala: 'Você torce para o Real Madrid por Champions League', 'Você torce pelo Cristiano Ronaldo'. Detesto completamente essas pessoas que falam isso. Nunca coloquei ninguém acima do clube e nunca vou colocar."

É uma questão de fidelidade – e há um incômodo ao serem questionados sobre seus "clubes de verdade", ou seja, os clubes no Brasil. O técnico em química Rafael Gaspar, 25, viu no Liverpool a chance de realmente ter um clube do coração, sem a obrigação de ter uma equipe no Brasil.

"Quando era pequeno, acompanhava meu pai, ele era corintiano. Eu via jogos em bares e torcia com ele. Mas, desde 2004, quando eu tinha meus dez, 11 anos, eu nunca mais torci para um time brasileiro e nem outro no mundo, sempre foi o Liverpool", relata, antes de explicar o início de sua trajetória como torcedor do clube inglês. "A primeira vez que vi um jogo do Liverpool foi na campanha de 2004/05 da Liga dos Campeões, a última partida da fase de grupos, contra o Olympiacos. O Liverpool venceu por 3 a 1 e se classificou, mas é claro que a final da Champions como foi (naquela temporada) ajudou a continuar a acompanhar o Liverpool."

A final da temporada 2004/05 ficou conhecida como "batalha de Istambul". Liverpool e Milan protagonizaram a maior virada da história em uma final de Liga dos Campeões. Os italianos fizeram 3 a 0 na primeira etapa com gols de Paolo Maldini e Hernán Crespo (duas vezes), levando para o segundo tempo uma vantagem que jamais havia sido revertida em uma final europeia. Mas o Liverpool voltou a campo e chegou ao empate em 15 minutos. Steve Gerrard, Vladimir Smicer e Xabi Alonso decretaram o 3 a 3 – em partida que ficou marcada na memória afetiva de muitos torcedores no Brasil – e os ingleses venceram nos pênaltis.

Atmosfera que vai muito além do futebol
"O que conta não são só os títulos. Contam, por exemplo, os personagens. O Liverpool tem uma coisa especial, que é trabalhar todo o estilo de Anfield, a música, o canto, o 'You'll Never Walk Alone' (música da banda Gerry and the Pacemakers, cantada pela torcida antes da equipe entrar em campo), o espaço para as bandeiras, então é uma comunicação muito bem feita. Muitas vezes para o torcedor não são só os títulos, ele quer algo maior", aponta Virgílio Neto.

A aproximação entre clube e torcedor parece ser algo mais forte com os times de fora do Brasil. Enquanto por aqui há uma política de modernização dos estádios – e encarecimento dos preços de ingressos –, a Europa parece ir por outro caminho. Mesmo que distante geograficamente, já vem sendo feito há tempos por clubes do Velho Continente um trabalho de aproximação com a comunidade.

Virgílio Neto dá o exemplo do modesto St. Pauli, da segunda divisão da Alemanha. Mesmo ficando na 12ª posição na Bundesliga 2, a equipe vem recrutando torcedores pelo mundo por um motivo específico: tem projetos para combater preconceitos sociais nos estádios, como a homofobia, por exemplo. "É uma comunicação que pega muito o tema da inclusão de minorias, então a comunicação do clube, bem feita como é, bem apresentada para quem consome televisão, uma comunicação feita com alguns valores faz com que crianças e adolescentes torçam para o time", explica. A fanpage brasileira do pequeno clube alemão no Facebook tem 1,7 mil curtidas. No Twitter, a página brasileira da equipe, que nunca conquistou título algum, tem 1,3 mil seguidores.

Preocupação com os torcedores do futuro
Esse processo de crescimento das equipes da Europa dentro do Brasil já tem reflexos negativos para clubes nacionais e gera a preocupação: como serão as gerações futuras? "Essa atual geração ainda tem pais, irmãos, primos, alguém que ainda torce para clubes brasileiros. Então nesse momento não é prejudicial nesse sentido. Prejudicial pode ser para as que vêm pela frente, por influência desses torcedores de hoje que torcem para equipes estrangeiras e não brasileiras. Não é prejudicial hoje porque as equipes brasileiras ainda fidelizam de uma maneira familiar", argumenta Virgílio Neto.

Familiares que podem incentivar ou não a escolha das equipes de coração. O estudante de engenharia civil Matheus García, 21, viu em seu avô o maior exemplo para acompanhar e torcer pelo Real Madrid. Espanhol de nascimento, o avô passou para o neto a admiração pelo clube. Após um hiato na paixão com a equipe merengue, García voltou a enxergar o time com outros olhos a partir de 2012 – e hoje se considera um torcedor do Real Madrid.

"Assistir ao Real Madrid é ver um jogo muito técnico, muito bem jogado. Sou uma pessoa que gosta realmente de ver, de analisar a parte tática. Ver jogadores como Modric, como Toni Kroos, o próprio Cristiano Ronaldo, com uma técnica tão grande, dá muito gosto", aponta o também torcedor do Internacional. "O futebol brasileiro é mais emoção, é outro tipo de experiência."

Esse apego familiar tende a continuar geração após geração – caminhando como sempre como o principal fator de escolha dos clubes de coração. Porém, é a partir de agora que os clubes brasileiros devem começar a se preocupar.

"A geração seguinte vai ser ainda mais influenciada por essa comunicação dos clubes", diz Virgílio Neto. Para ele, os clubes brasileiros já vêm sentindo nos cofres os primeiros problemas financeiros que a entrada dos europeus no Brasil tem causado. "Em cerca de dez anos, se (os clubes brasileiros) não trabalharem bem essa comunicação, a quantidade de jovens adeptos de clubes estrangeiros vai ter uma porcentagem que irá prejudicar o futebol brasileiro e sul-americano", completa o gestor esportivo.

Com supervisão de Fábio Galão
Editor de Esporte

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