Salvador, 13 (AE) - Enquanto os participantes da Regata do Descobrimento vão curtindo a praia e o acarajé de Salvador, um outro veleiro de grandes aventureiros ainda está em alto-mar, rumando direto para Porto Seguro. É o Aysso, da Família Schurmann, que também refaz uma célebre viagem, a de Fernão de Magalhães. (a reportagem da AE está a bordo do navio-veleiro Cisne Branco, da Marinha, com patrocínio do Banco Bandeirantes). O navegador português Fernão de Magalhães foi o primeiro a realizar uma viagem de volta ao mundo. Partiu de Sevilha (Espanha) em agosto de 1519, comandando uma esquadra de cinco naus que levava 265 homens. Em dezembro, parou no Rio de Janeiro
antes de contornar a América do Sul e enfrentar o Oceano Pacífico em direção às Filipinas, onde foi morto por indígenas. Capitão-mor substituído, a expedição seguiu viagem de volta à Espanha, onde chegou em setembro de 1521, com apenas 18 marujos.
A viagem dos Schurmann é um pouco mais longa que a de Magalhães, e muito mais que a do descobrimento: começou em novembro de 1997 e termina no próximo dia 22, para coincidir com as comemorações do quinto centenário da chegada de Pedro álvares Cabral ao Brasil. Depois de Porto Seguro, eles ainda seguem até Porto Belo (SC), de onde partiram, para que a volta seja completa. O ponto de partida e chegada não é o mesmo, mas o percurso é igual ao de Magalhães.
Embora não participem da Regata do Descobrimento, os Schurmann se encontraram com a flotilha na largada, em Lisboa, e nas outras paradas.
Em Mindelo (Cabo Verde), onde começou a terceira perna, fizeram uma recepção para mais de 45 velejadores brasileiros no Aysso.
A primeira viagem longa dessa simpática família durou dez anos, de 1984 a 1994, e passou por 42 países nos três oceanos, numa navegada de 50 mil milhas (92.600 quilômetros). Dessa vez, contam que enfrentaram ondas de dez metros na região do Estreito de Magalhães e os fortes ventos williwaw, com rajadas inesperadas de 150 km/h.
E que visitaram lugares remotos como a Ilha de Páscoa e a quase inacessível Ilha de Pitcairn, no meio do Pacífico, além de terem explorado cavernas submarinas e vulcões e mergulhado com tubarões brancos na áfrica do Sul. Leia os principais trechos da entrevista com o patriarca Vilfredo Schurmann, que lidera a tripulação de seis pessoas - entre elas, a simpática e esperta Katherine, ou Kat, neozelandesa de sete anos adotada pela família. AE - Fale da convivência a bordo. Vilfredo - Temos uma filha de sete anos, nosso filho David, de 25, e mais tripulantes brasileiros e estrangeiros, que mudaram ao longo da viagem. Foi um novo aprendizado no relacionamento. Sempre estamos fazendo alguma coisa, estudando script para TV, lendo e respondendo e-mails (média de 15 mil por mês), escrevendo matérias para jornais e revistas, educando a Kat... Enfim, sempre em atividades, tornando o nosso dia-a-dia muito variado e sem rotina. AE - Qual foi o maior susto nesta viagem? Vilfredo - Foi a aproximação de um barco pesqueiro no mar da China, onde o ataque de piratas é frequente. Ele chegou a uns 50 metros e nós pensamos que seríamos atacados. Num dado instante, ele desviou sem explicação. Somente mais tarde, já em Jacarta, foi explicado. Quando a pesca está ruim, a tradição é navegar rumo à primeira embarcação que encontrar e em cima, bem perto, desviar para transferir a má sorte para outro barco. AE - Qual o fato mais interessante, que mais te marcou? Vilfredo - Foi presenciar a crucificação de um homem com a penetração dos pregos na mão e nos pés, com o sangue jorrando. E depois ele ficar na cruz por uns 30 minutos, em Cebu, nas Filipinas. AE - Qual a maior lição que se tira de uma viagem como essa? Vilfredo - Que temos que preservar os oceanos e respeitar mais o nosso planeta. AE - Você acha que Cabral foi o primeiro navegador a pisar em nossas terras?
Vilfredo - Oficialmente, sim. Mas há muitos relatos de outros navegadores que já haviam estado em terras brasileiras. Os próprios portugueses se referem ao achamento, e não ao descobrimento. AE - Qual será o próximo projeto? Vilfredo - Ainda é cedo para contar.

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