Londrina - O "Mão Santa" Oscar Schmidt, 50 anos, esteve em Londrina semana passada a convite do Sebrae/PR para dar uma palestra a empreendedores e profissionais liberais. Seguindo a mesma linha de trabalho de Bernardinho, técnico da seleção masculina de vôlei, as palestras motivacionais passaram a ser a nova atividade de Oscar desde que parou de jogar, em 2003 - seu último clube foi o Flamengo.
O maior atleta de basquete do Brasil de todos os tempos e também recordista mundial de pontos (49.703 em 32 anos de carreira), Oscar disse com muito bom humor que está determinado agora a quebrar novos recordes, só que como palestrante. "Tenho dado entre 10 e 20 palestras por mês e essa aqui para vocês (realizada no Teatro Marista, em Londrina) é a de número 429", enumerou.
Ele falou a uma platéia de 900 pessoas sobre "como vencer na vida jogando basquete no país do futebol e agora também do vôlei". "O basquete infelizmente nunca vai ter a repercussão que o futebol tem no Brasil. Eu, por exemplo, recebi do rei Juan Carlos, da Espanha, o título de melhor jogador do mundo em um ano, mas quase ninguém sabe. Já o Ronaldo e o Ronaldinho todos sabem que já foram ‘o melhor do mundo’ (da Fifa)", reclamou.
De uns anos para cá, com a decadência do basquete e a ascensão do vôlei, a situação piorou, conta ele. "Parece que ninguém mais reconhece quem joga basquete no Brasil. Tempos atrás um senhor reclamou pra mim numa padaria: ‘É, Oscar, você precisa voltar para a seleção, porque o Bernardinho parece que não tem mais comando sobre o time. Está uma porcaria!’. Eu ia falar o quê para ele?", perguntou aos presentes.
Para o ex-cestinha, o que mais falta na seleção brasileira atual, que ficou fora das últimas três Olimpíadas, é patriotismo. "Sou filho de militar, sempre tive uma educação rígida e sei o que é ter ética e fidelidade ao meu país. Pra mim, o maior orgulho sempre foi defender o Brasil. Os garotos de hoje não têm isso", criticou, dando uma cutucada em atletas como Leandrinho, Anderson Varejão e Nenê, que atuam na NBA (a liga profissional norte-americana) e não foram para o Pré-Olímpico Mundial de 2008, na Grécia.
Oscar, ao contrário, contou que "todos os anos saía morto da temporada na Itália" e vinha direto para o Brasil treinar na seleção. "E nunca recebi um centavo da seleção, perdia sempre as minhas férias e não tinha porcaria nenhuma de seguro para jogar, como hoje exigem atletas e dirigentes da NBA", comparou. O ala teve muitos convites, mas disse que nunca aceitou jogar na liga americana porque não poderia (na época) defender a seleção brasileira. Na entrevista a seguir, Oscar falou à FOLHA sobre outros assuntos:

FOLHA - Você acha que o basquete nacional tende a melhorar com esse novo campeonato da Liga de Clubes?
Oscar - É o passso fundamental para começar a melhorar. Finalmente a CBB viu que estava errada e vai deixar os clubes mandarem no campeonato. Mas espero que deixe mesmo. E os clubes têm que tomar conta do campeonato, criarem imediatamente o site da Liga para informarem a torcida.

Como você vê o enfraquecimento do basquete de Londrina?
É uma pena. Londrina é uma praça que provou que gosta de basquete e sempre lotou o seu ginásio nos bons tempos. Eu vim jogar sempre em Londrina com o ginásio lotado. Não sei se os caras vinham para me xingar ou para acompanhar o time de Londrina. Mas isso faz parte... O problema é que houve uma rivalidade muito perigosa, criada pelo "seo" Enio Vecchi (ex-técnico de Londrina) e aquilo poderia acabar em tragédia. Por pouco não acabou. Nós escapamos de pedradas e poderia até alguém ter dado tiro em alguém. Ele (Enio) incitou torcida contra mim. Mas isso é passado, deixa pra lá.

O que falta ao time de Londrina?
É o mesmo que falta aos outros times de basquete do Brasil: retorno de mídia. No Flamengo, por exemplo, onde joguei por quatro anos, quase ninguém sabe que existe basquete. O basquete hoje não tem em televisão aberta, não temos resultados da seleção brasileira... Daí não tem como ter notícia. Esse é um grande motivo pelo qual os patrocinadores fogem. Não tem retorno de mídia.

Quanto a ausência do Brasil nas últimas Olimpíadas prejudicou os clubes?
Atrapalhou bastante o basquete brasileiro. Inclusive foi fundamental para que não exista mais renovação de muitos jogadores. E agora a CBB é que tem que fazer isso, massificar o esporte através de escolinhas pelo Brasil. Na minha época o basquete era o segundo esporte, os campeonatos de clubes eram muito seguidos, os jogos do Sírio passavam na (Rede) Globo.

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