Falta de novos ídolos no futsal preocupa Falcão
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de maio de 2012
Rafael Souza <br> Reportagem Local 
2012 é um ano mais que importante para o futsal brasileiro. Hexacampeã do mundo, a seleção brasileira se prepara para mais uma Copa do Mundo, em novembro, na Tailândia.
O primeiro passo já foi dado com a classificação para o Mundial, garantida nas Eliminatórias Sul-Americanas, realizadas mês passado, em Gramado (RS). O esperado título, no entanto, não veio e o tropeço diante dos paraguaios na semifinal gerou críticas e abriu questionamentos em torno da preparação da seleção brasileira para o torneio.
Para o astro Falcão, que passou por Londrina na semana passada, quando seu time, o Orlândia (SP), enfrentou o Colégio Londrinense/São Paulo/Sercomtel pela Liga Futsal, a derrota para o Paraguai tem que servir de alerta.
Em entrevista exclusiva à FOLHA, o jogador fala sobre a preparação para o Mundial, revela preocupação com a formação de novos talentos para a modalidade e cobra melhor administração para a principal competição do país, a Liga Futsal. Confira abaixo os principais trechos da conversa com o ídolo:
Até que ponto a derrota inesperada para o Paraguai influencia na preparação para a Copa do Mundo?
Acho que o tropeço só pode ajudar. A gente sabe que os jogadores (que atuam) da Europa não puderam vir, mas mesmo só com os jogadores do Brasil a gente tinha grandes chances de vencer. Isso mostra também a evolução dos outros times e que temos que nos preparar de verdade, pois não tem mais ninguém bobo. Serviu para aprender, rever algumas situações, para que no futuro elas não se repitam.
Como você avalia a preparação até aqui?
A gente fica triste pelo fato dos jogadores de fora não terem vindo (para as Eliminatórias). Não pela falta, mas do grupo estar junto. Tivemos no início do ano um giro pelo Norte e Nordeste, onde estivemos juntos e isso é o mais importante, até mais que os jogos. A gente tem algumas convocações aí, em maio já tem, e de novo sem os jogadores da Europa. Faz falta a gente estar treinando desde já, pois sabemos que não é este o grupo que vai para o Mundial. E isso acaba fazendo falta num certo momento.
Com tudo isso, a seleção estará preparada para o Mundial?
Estará preparada. A gente vai ter tempo para isso. É diferente dos nossos principais concorrentes, que em suas convocações, os jogadores estão todos ali. A Espanha, se quiser repetir a mesma convocação quatro anos, repete, e o Brasil não consegue. Isso prejudica, mas a gente aposta na qualidade e que a seleção completa impõe um respeito muito maior, então, estou bem tranquilo quanto a isso.
Boa parte desta geração vai para o seu último Mundial. Na sua opinião, o Brasil está produzindo jogadores para manter o bom nível da seleção?
A gente tem uma geração de bons jogadores, não há uma geração de jogadores diferenciados. Isso é um fato preocupante, não pelos resultados, mas pelo esporte, de não estar criando ídolos. Essa nova geração não tem um chamariz, para o público em geral, para as crianças se espelharem. Quanto a resultado não me preocupa, porque acho que a seleção vai continuar competitiva, mas quanto ao esporte, no geral, é preocupante sim.
O fato de boa parte da mídia ser direcionada a um único jogador não é prejudicial para o futuro do esporte?
É triste ter um esporte, que tem o maior número de praticantes no Brasil e 80% da mídia do esporte ser para um atleta só. Para mim, é maravilhoso, já tenho meus sete patrocínios individuais, os da seleção são meus patrocinadores também, mas para o esporte não é legal. Mais três, quatro anos, eu paro e essa continuidade de atrair mídia, público, patrocínios, é preocupante pro nosso esporte.
E o que é preciso fazer?
Criar ídolos. A mudança de regras favoreceu muito a queda de rendimento. Essa geração que está chegando começou há 10 anos e pegou essa regra de goleiro-linha. Antigamente você estava perdendo um jogo, tinha que sair driblando, se virar para cavar uma falta, tinha que ir na qualidade mesmo. E hoje, não tem mais o drible. Se está perdendo, vai de goleiro-linha, quebra essa transição do ala driblar, dar um passe bom. Essa geração está pegando isso, por isso não tem craques e preocupa bastante de um modo geral.
Em relação à Liga, o que ainda precisa melhorar para ser comparada aos melhores campeonatos do mundo?
Acho que tem que melhorar em algumas coisas administrativas. A gente está muito a frente de outros esportes, mas falta um pessoal bacana entre a Confederação, a mídia e torcida para fazer um bom trabalho. Infelizmente nossa confederação ainda não enxerga assim, não tem ninguém que tome uma decisão, não tem uma assessoria de imprensa adequada, alguém que venda o nosso esporte. E isso acaba afastando a qualidade que tem o futsal.
Quais os planos para depois que parar de jogar?
Dentro do esporte quero continuar em alguma coisa mais esporádica, algo ligado à seleção brasileira, porque quero curtir, viajar com a minha família e não estar num clube envolvido totalmente. Meu planejamento de vida é curtir, mas não sair do esporte.
Ser treinador, nem pensar então?
É uma hipótese que não descarto, desde que seja dentro da seleção brasileira, mas em princípio penso em alguma coisa mais administrativa. Mas se tiver que ser treinador também, é uma coisa que eu curtiria sim.


