Falavigna realiza sonho do pai e 'vira' militar
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de novembro de 2009
Thiago Mossini<br> Reportagem Local 
Quando está em ação, ela tem cara de brava. Bota medo nas adversárias e nos marmanjos que estão ao redor. Perfil perfeito para um militar. E não é que ela virou um. Por três semanas, a taekwondista Natália Falavigna vai trocar o bojo pela farda. Ela e outros medalhistas olímpicos, campeões mundiais, pan-americanos e sul-americanos viraram recrutas do exército.
Atletas como os judocas Tiago Camilo e Leandro Guilheiro, o velocista Vicente Lenílson e a saltadora Keila Costa foram incorporados ao Exército como sargentos temporários na última segunda-feira, no Rio de Janeiro. Porém, lá eles não têm privilégios ou regalias e recebem o mesmo tratamento dos outros recrutas. Os novos 'membros' do Exército estão sendo preparados para disputarem os Jogos Mundiais Militares do Rio, em 2011.
Mas não é porque eles têm um currículo recheado de conquistas que tiveram facilidades para entrar no grupo. Além disso, um vacilo pode excluí-los de lá. Os sargentos estão sujeitos ao regulamento militar em caso de indisciplina fora do quartel e de doping. ''Foi por edital, publicado no site do Exército. Fiz a inscrição, preenchi os formulários, separei a documentação, fiz uma pontuação X no edital, passei por exames clínicos, físicos, entrevistas e após isso fui uma das selecionadas'', explicou Natália.
A disciplina e a hierarquia já faziam parte da rotina dos atletas. ''Estou acostumada. Vim de um esporte que tem a sua origem nesse meio. Aprendi desde cedo valores importantes como respeito, disciplina, ordem, responsabilidade, união, companheirismo... Isso é cobrado muito rigidamente aqui dentro. Fico contente com o progresso que eu e os demais atletas temos a cada dia, desde de prestar continência a nossos superiores, aprender as regras das Forças Armadas, a marcha, acho que somos um pelotão que surpreende pelo fato de que nós (atletas) prezamos sempre pela excelência'', afirmou.
Agora, complicado para eles é ter que acordar antes de ''o galo cantar'' após um dia de treinos puxados. Além te ter que cumprir os movimentos aprendidos e soltar a voz para comandar o pelotão. ''A única diferença para um curso de sargento temporário do Exército é que estamos fazendo tudo de uma maneira mais intensiva, em três semanas, ao invés de 40 dias. E temos dois períodos ao dia para treinarmos mas de resto fazemos as mesmas coisas que todos os militares. Temos a ordem unida, a educação militar, iremos aprender sobre sobrevivência na selva, a armar e atirar com fuzil... Exatamente como todos. Então, nosso dia começa às 5h30 e só termina depois das 19 horas. É bem puxadinho'', descreveu Falavigna, que respondeu às perguntas da FOLHA num dos poucos momentos em que tem contato com o resto do mundo pela internet à noite. No quartel, nada de celular. ''De noite a gente só tem tempo de ligar um pouco o computador porque o cansaço derruba'', contou a recruta, que realiza um sonho do pai ao vestir o uniforme militar.
Fora a carga horária de trabalho, eles também reservam tempo para treinar em suas modalidades. Os atletas estão morando no alojamento e vão passar três dias na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ), onde terão treinamento na selva e aprenderão a atirar, experiência que eles levarão para a carreira esportiva e darão ao Brasil uma oportunidade de crescimento na Olimpíada de Londres, em 2012. Em Pequim, das 72 medalhas conquistadas pela Rússia, 44% foram ganhas por atletas militares. Alemanha, França e Itália também tiveram índices altos de conquistas por atletas militares.
No Brasil, além dos benefícios de carregar a patente, os atletas selecionados neste primeiro edital terão direito a um soldo de R$ 2,5 mil, com possibilidades de renovação de contrato por até sete anos. A partir de agora, eles terão como única exigência participar de todas as competições militares. Há uma previsão de que sejam abertas 48 vagas para o segundo edital.
''É uma experiência que vai além da minha carreira como atleta. O esporte me proporcionou isso, mas este ensinamento levarei para a vida inteira e é algo que me engrandece como pessoa, por uma história de vida diferente da grande maioria das pessoas'', definiu Falavigna, ressaltando os proveitos tirados no Exército.


