FALAMOS COM Thiago Pereira
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
PAULO ROBERTO CONDE <br> FÁBIO ALEIXO 
>IDADE: 26 >LUGAR: na redação do L! em São Paulo >ASSUNTOS: medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Londres-2012, Rio-2016, investimento no esporte e plano pós-carreira
O ano de 2012 acabou com as - injustas - nuvens que pairavam sobre a carreira de Thiago Pereira. Multimedalhista em Jogos Pan-Americanos, faltava ao versátil nadador fluminense brilhar em um grande palco.
Quis o destino que Londres- 2012 abrigasse seu despertar. Quatro meses após conquistar a medalha de prata nos 400m medley com direito a batida à frente de Michael Phelps, Thiago afirma estar mais leve. Mas se engana quem acha que ele se acomodará.
Ele mira um pódio "definitivo" no Rio-2016. Nesta entrevista, ele fala sobre investimento no esporte e maturidade. Confira:
Paulo Roberto Conde: Em uma outra entrevista ao L!, perguntamos se você trocaria todas medalhas de Jogos Pan-Americanos por uma olímpica, e você disse que sim. Hoje, você aceitaria?
-Naverdade eu quis dizer que só adicionaria. Medalha olímpica foi e sempre será um grande sonho. Em 2016, vou brigar por outra. Mas todas as medalhas do Pan tiveram um significado especial. Mas a medalha olímpica veio para fechar um sonho por concreto. Ela consolidou um grande trabalho.
Fábio Aleixo: Qual sensação você teve no momento em que ganhou a medalha em Londres? Consegue se lembrar?
- Foi um alívio. Quando encostei na borda, sabia que tinha dado pódio, mas não sabia se segundo ou terceiro. Quando vi no placar que eu havia ficado em segundo deu um alívio. Fiquei leve. Não tem como esquecer. Foi maravilhoso.
PRC: Incomodava o fato de as pessoas falarem que você não brilhava nas grandes competições? Foi um cala-boca?
- As críticas incomodavam, mas o valor da medalha é maior do que apenas um cala-boca. Tem um significado muito maior atrás disso. Passei por duas Olimpíadas e sei o que é não conquistar uma medalha e ter de esperar quatro anos.
FA: Como se imagina na Olimpíada do Rio? O auge já vai ter passado?
-O complicado é a prova dos 400m medley, que é muito pesada. Não tenho interesse de mantê-la até 2016. É uma prova dura, que demanda muito treinamento, e o corpo tem de estar além do limite. Como estarei mais velho, a recuperação é mais lenta e tudo complica mais. Quero dar ênfase aos 200m medley e buscar alguma outra prova. Um pódio no Rio fecha minha carreira com chave de diamante.
PRC: Você sempre baseou sua carreira em provas de medley. Quais outras cogita nadar em 2016?
- Vai depender muito de como o mundo estiver indo. Nos 100m borboleta já provei que venho tendo bons resultados. Por que não encarar? Vale o desafio. O segredo da natação é sempre criar desafios.
FA: Como vê a aposentadoria de Michael Phelps? Acha que ele pode voltar nos Jogos Olímpicos do Rio?
-Ele não volta de jeito nenhum. Se voltar só vai dar chance de gente cair em cima dele. Ele não tem mais o que provar. Nada vai ser maior do que já fez. Ele parou no auge, com 22 medalhas olímpicas. Sobre a aposentadoria dele, acho que ainda bem que na medalha que conquistei estavam todos lá. Prefiro ganhar medalhas em cima dele do que ganhar sem ele. Esta minha prata de Londres não tem contestação.
PRC: Cesar Cielo chegou a Londres como grande nome da natação brasileira e os resultados dele foram aquém do esperado. E você saiu em alta. Como você vê a mudança na ordem das forças?
-Acho que não tem muito um contra o outro. Os 50m livre são uma prova em que qualquer coisa te tira ou coloca na medalha. Qualquer erro custa caro. Se fizer melhor de cinco com os caras daquela final, o Cesão ganhava três. Naquele momento, naquele segundo, não foi. Ele vai chegar ao Mundial no ano que vem (em Barcelona) e vai ganhar do cara (Florent Manaudou, campeão olímpico). Conheço a peça.

FA: Em 2016 pode haver muita pressão, isso pode atrapalhar?
- Até tem de haver pressão, mas desde que haja motivo para a pressão. Não adianta o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) cobrar. Tem de dar estrutura, e aí cobrar. Fomos no ano passado ao lançamento da Lei de Incentivo ao Esporte e falaram que iam investir R$ 200 milhões; mas aí você vê os irmãos (Esquiva e Yamaguchi) Falcão, que ganharam duas medalhas em Londres, e que até outro dia davam soco na bananeira para treinar. Estamos virando o ano no PRO16 arrancando os cabelo fora para ver como manteremos o grupo. Temos mensalidade que temos de bancar, e tiramos um pouco do nosso bolso. Como pode um grupo com seis nadadores olímpicos ter de quebrar a cabeça para treinar?
PRC: Como vê o papel da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA)? Ela ajuda?
- A CBDA tem ajudado bastante. Não tenho muito o que dizer. Quando falo de investimentos, nem digo de CBDA. Falo mais de investimento para chegar às medalhas. Ainda temos (os atletas) de correr atrás. Depois que ganhou medalha, as coisas vêm mais facilmente. Mas não adianta chegar dois anos antes da olimpíade e falar que quer ficar no top 5 se não fizermos nada antes.
FA: A natação feminina nacional atravessa um mau momento. O que falta para dar um salto?
- Eu via as meninas nos Estados Unidos treinarem e comerem água. Tem menina aqui no Brasil que treina? Tem. Mas nos Estados Unidos tinha vez que eu treinava e vinha mina que dava pau em mim. Falo isso em um plano geral. Falta acreditar mais.A CBDA tem de parar para ver o que tem acontecido.
PRC: Como você vê esta destruição que haverá do Júlio de Lamare?
- É triste. Estamos caminhando para uma Olimpíada, e derrubar piscina como Júlio de Lamare é um absurdo. O que tem de história na piscina, quanta gente já foi formada ali... Já tivemos recordes mundiais até. Eu nasciemVolta Redonda, e minha época toda de criança eu nadava ali. É triste, porque acabaram de gastar milhões para reformar e para estacionamento. É a mesma coisa que daqui a alguns anos os italianos derrubarem o Coliseu porque ninguém tá usando e construir estação de metrô.
FA: Como você vê esta sua nova fase? Está mais maduro?
- Estou bem satisfeito comigo. O ano de 2012 foi ano muito especial, e agora vou casar com a Gabriela. Vai ser uma nova etapa, mas não pretendo nunca deixar a natação de lado. Vejo um Thiago mais maduro, sem tanta pressão. Eu me jogava muita pressão pela medalha olímpica. Muitas vezes eu me atrapalhava. Para este próximo ciclo, estarei muito mais calmo e confiante. Já sei o caminho.
PRC: Planeja ter filhos até 2016?
- Só depois. Acho que não vai dar certo misturar as duas coisas. Ainda quero um grande resultado na Olimpíada do Brasil. Quero estar representando o país no melhor da minha forma. Filho é um grande sonho, mas agora não é hora.
FA: Você acha que deve ser aposentar após o Rio-2016?
- Vou nadar mais um tempo, mas paro em termos de Olimpíada. Quatro Olimpíadas está bom, né? Já com uma medalha e saindo com mais uma de 2016 está bom.



