Fala, Professor
Analisei uma reportagem interessante na Folha de Londrina sobre o comportamento egocêntrico das crianças estarem relacionados com a falta de limites. Parei um tempo e perguntei-me: como a Educação Física pode contribuir para a superação dessa etapa?
Atuando como professora em um programa social por dois distritos rurais de Londrina, tenho acompanhado cada vez mais, crianças e adolescentes com idades além dos 10 anos, apresentando características individualistas, com dificuldades para estabelecer vínculos afetivos em grupos, estabelecer diálogos, argumentar e escutar o que o outro tem a dizer, compartilhar experiências, compreender e respeitar regras, ser solidário e trabalhar em grupo. É como se estivessem centrados apenas em si, o que não deixa de caracterizar o egocentrismo.
Diante dessa situação, como a Educação Física pode contribuir para a superação do egocentrismo? Antes de uma possível resposta sugestiva, convém analisar o que poderá reforçar o egocentrismo, mesmo com a evolução cronológica. Um dos pontos para o egocentrismo descritos na reportagem é a falta de limites. Indo até o conceito, veremos que limite se trata de uma linha ou ponto divisório; fronteira. Logo, limite pode ser uma barreira considerada própria, aquela que só diz respeito a um único indivíduo, como pode também, ser uma barreira considerada do outro, significando haver duas dimensões diferentes e opostas, que podem ou não ser rompidas e superadas.
Quando somos instigados a compreender até que ponto podemos ir, dizemos que temos consciência de um limite, porém quando não existe esta possibilidade, não há consciência de limites, gerando uma sensação de que pode ser feito tudo o que se tem vontade e no momento que se quer. Deste modo, não se percebe o outro e nem as regras, percebe-se somente a si e o que se tem como concepções próprias, o que dificulta uma relação social boa dentro de um grupo com opiniões, pensamentos diversificados e regras.
A Educação Física enquanto área de conhecimento ampla sobre a cultura de movimento corporal, mediante jogos, brincadeiras e esportes coletivos, além de outras práticas, poderá auxiliar no desenvolvimento dos aspectos humanos para além do egocentrismo, contribuindo para a formação de sujeitos aptos a cooperar e coordenar diferentes situações e opiniões dentro de grupos. No entanto, os procedimentos pedagógicos deverão voltar-se para esta formação, caso contrário, reforçará o que já tem sido afirmado durante toda a etapa já construída.
Estando na mão de muitos educadores, a Educação Física enquanto meio/chave de ensino precisa ser aplicada sob concepções que privilegiem a construção e o entendimento de regras coletivas em jogos adaptados dentro do esporte, além da discussão e exercitação da voz própria diante dos conflitos dentro do grupo, conseguida se possibilitada com momentos de rodas de conversa entre as crianças. Outro ponto que vale ressaltar é a exercitação do compromisso e da responsabili-dade, diante de situações em que a criança tenha que decidir e escolher por opções estabelecidas.
Por fim, cabe aos educadores estabelecer procedimentos compatíveis com a superação do egocentrismo e isto estará de acordo com o que pensam sobre como o sujeito constrói conhecimentos para evoluir.
Se considerarem que o sujeito constrói conhecimentos sozinhos, por conta própria, sem limites como barreira conflituosa, não possibilitarão meios compatíveis para a superação do egocentrismo e sim seu reforço. É evidente que até os 7-8 anos as crianças têm dificuldades para trabalhar em grupos, no entanto, estão a caminho andado para a cooperação, necessitando estratégias voltadas para a interação, a construção de regras mútuas e a consciência dos limites de si e dos outros, com o que podem ou não ser rompidos e superados.
Nathália Aparecida de Oliveira, Especialista em Educação Física Escolar.





