Torcer, gritar, sofrer e comemorar com a seleção brasileira. Só que desta vez num ambiente sem bagunça e sem qualquer possibilidade de ter a inseparável companhia da cervejinha. Até cigarro não entra, nem por decreto, no local onde a Folha foi acompanhar ontem o jogo contra Gana a Companhia Cacique de Café Solúvel, em Londrina. Na portaria, um aviso já deixa bem claro a todos que fósforos, isqueiros e cigarro são proibidos no interior da fábrica (para prevenir acidentes e explosões).
Um clima bem diferente do embalo que há nos botecos, shoppings e clubes, mas muito interessante pela integração que o jogo acaba promovendo no ambiente fabril, com diretores, operários e funcionários terceirizados torcendo todos no mesmo local e unidos no mesmo objetivo.
Como a indústria funciona 24 horas por dia ''e as caldeiras e máquinas não podem parar'', conforme relata o gerente industrial Júlio César Grassano, a solução que a empresa encontrou para a maioria assistir aos jogos do Brasil foi colocar telões nos barracões e também num auditório. ''Tem que ser assim porque não podemos dispensar os funcionários por causa de um jogo. Depois que acaba, cada um volta pro seu setor para continuar trabalhando'', explicou o gerente de Recursos Humanos, Ronaldo da Graça.
Em um galpão onde a empresa armazena produtos, foi colocado um telão de 5m x 5m para cerca de 200 funcionários. Outro telão ficou no auditório usado para treinamento, que tinha ainda quatro tevês de 20 polegadas. Um terceiro grupo preferiu assistir à peleja no barracão onde os operários descansam e batem uma ''bolinha'' na mesas de sinuca durante o intervalo.
Mal a partida começou, já estava 1 a 0, gol do Fenômeno aos 5 minutos. ''Isso aqui é sempre uma festa. Conseguimos liberar a maioria para ver o jogo porque o Brasil é o país do café e do futebol. Essas duas coisas não podem faltar'', comentou Ronaldo da Graça. E não foi por acaso que a empresa associou sua marca (Café Pelé) ao nome do maior jogador de todos os tempos. ''A parceria com o Pelé existe desde 1972'', informou.
Após o 1 a 0 foi só sofrimento entre os funcionários. João Dorce, do setor de segurança no trabalho, não estava gostando do espaço dado pelo meio-campo do Brasil aos ganenses. ''O time deles vem pra cima e bate um desespero na gente. Se tivessem mais experiência já tinham empatado''. Luiz Carlos Santos também estava apreensivo: ''A marcação está muito fraca e a negrada vem pra cima toda hora''.
O gol perdido por Adriano logo no início não foi perdoado por ninguém. Em compensação, sobraram aplausos para o milagre operado por Dida quase no final do primeiro tempo. ''Tá terrível. O ataque do Brasil está muito fácil de ser marcado e vira esse sufoco'', reclamou o operador da área logística Marcos Aurélio. Quando a situação estava quase insustentável surge o segundo gol salvador.
No segundo tempo, com o jogo já sob controle, começavam a surgir as especulações em torno do resultado final, afinal muitos entraram no bolão da firma. ''Ainda vamos fazer mais um e vou levar uns R$ 40'', previa Antônio Luis Sousa, que apostou 3 a 0. Quando Zé Roberto apareceu livre na frente do goleiro e marcou o terceiro, ele e Fábio de Oliveira, que também arriscou os 3 a 0, eram só festa. ''Pronto juiz, agora é só acabar o jogo que a gente vai pegar o prêmio'', pediu Oliveira.
O problema é que ainda tinha jogo pela frente e surgiram mais três chances claras de gol, que foram desperdiçadas de forma incrível por Ronaldo, Cafu e Juan. Daí a dupla faturou o bolão, para a tristeza de tantos outros, que apostaram 4 a 0.

mockup