São Paulo, 10 (AE) - A pouco mais de um ano do prazo final para a transformação obrigatória em empresas, os grandes clubes do Brasil resistem. Enquanto o presidente do Clube dos 13, Fábio Koff, e a bancada dos dirigentes esportivos no Congresso Nacional tentam articular, com o ministro de Esporte e Turismo, Raphael Grecca, mudanças no polêmico artigo 27 do capítulo V da Lei 9.615 (a Lei Pelé), ninguém ousa dar o primeiro passo.
A partir do dia 24 de março de 2000, pelo artigo 27, as atividades relacionadas às competições de atletas profissionais ficarão assim: 1) sociedades civis de fins econômicos; 2) sociedades comerciais admitidas na legislação em vigor; 3) entidades de prática desportiva que constituírem sociedade comercial. Segundo a lei, os clubes que infringirem qualquer dispositivo desse artigo terão as atividades suspensas.
O consultor de marketing esportivo Marco Aurélio Klein acredita que os clubes vão deixar para "a última hora" a transformação em empresa. Ele acredita, porém, que a transformação seja irreversível. "O lobby, este jogo político, não deve dar certo, por causa da Receita Federal; a União descobriu no futebol um filão importante para a captação de recursos", analisa.
Diante do impasse, o próprio Pelé afirma que a lei precisa de algumas correções, que deveriam ser feitas por meio de medidas provisórias. "Mas parece que o ministro Grecca está relutando em tomar esse caminho", diz Pelé. Para debater o tema, Grecca já programou um seminário, para os dias 23 e 24, no Rio.
Pequenos e grandes - Por enquanto, José Carlos Brunoro, da Brunoro Sports, constata que os clubes pequenos se mostram muito mais suscetíveis à transformação. "A minha empresa vem recebendo diversas sondagens de clubes pequenos ou médios; os grandes só estão interessados em recursos antecipados."
Quando se associa a algum clube, como o Botafogo-SP, a Brunoro Sports propõe-se a adaptá-lo às exigências da Lei Pelé. "A empresa faz auditoria, renegocia dívidas e estuda formas de captação de recursos; o fundamental é que o clube não pode gastar mais do que arrecada", explica. Brunoro diz que sua empresa não está, por enquanto, interessada em comprar ações das futuras S.As.
Klein concorda que os clubes pequenos têm, realmente, dado um passo mais firme em relação à mudança, mas encontra uma explicação para isso. "Muitos dos pequenos só têm o futebol; os grandes têm uma estrutura mais complexa e muitos tentarão fazer a mudança com os próprios recursos, sem a ajuda de um investidor de fora."
Esse pode ser o caso do Palmeiras, que tem um acordo de co-gestão com a Parmalat e não parece disposto a mudar a forma de parceria. "Ninguém do Palmeiras nos procurou até agora", afirma Paulo Angioni, diretor de Esportes da Parmalat, que já tem o seu clube-empresa: o Etti Jundiaí. "A demora na transformação dos clubes em empresas deve-se ao fato de os clubes não admitirem a sociedade minoritária nas parcerias ou cederem a gestão do futebol para os bancos ou investidores", acrescenta.
O presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo, Mílton José Neves, disse que espera uma definição, por parte do Clube dos 13, para formar uma comissão que estude a transformação do clube em empresa, o que deve acontecer a partir de abril. Neves diz que a principal preocupação no São Paulo, porém, é com o fim do passe. "Isso desestimularia o clube a formar jogadores nas categorias inferiores, como vem fazendo ao longo dos anos."
O presidente da Portuguesa, Amílcar Casado, não esconde que o seu clube "será o último a transformar-se em empresa". No Corinthians, os economistas Eduardo Rocha Azevedo, Emir Capez, Ibrahim Eris e Luís Paulo Rosemberg elaboraram, em 1997, um cronograma que visava à transformação do clube em empresa. O projeto, que estava arquivado, deve ser reativado, em consequência da crise econômica corintiana. O acordo com o Banco Icatu, segundo o presidente Alberto Dualib, seria outro grande passo.
Klein alerta, porém, que a simples transformação em empresas não garante o fim dos problemas econômicos dos clubes. "Tão ou mais importante que organizar os clubes é organizar as competições", analisa. Ele também observa que não se trata de uma resistência exclusiva. "Com a crise, os investidores ficam receosos; ainda mais no futebol, um negócio novo."

mockup