Dono da camisa 1 do Manchester United e da seleção holandesa há muito tempo, Van der Saar deve deixar o gol holandês após a Eurocopa deste ano. Um brasileiro, que já até treinou na Portuguesa Londrinense, está de olho no posto que ficará vago. É Heurélio da Silva Gomes, ou somente Gomes, aquele mesmo campeão da Copa do Brasil e do Brasileirão com o Cruzeiro, em 2003. Sem chances na seleção brasileira, o goleiro sonha em disputar a Copa do Mundo da África do Sul pela Holanda.
Com quatro títulos nacionais em quatro disputados no país baixo, o ''brazuca'' cansou de esperar um novo chamado do técnico Dunga - por quem já até foi lembrado -, deixou de lado o jeito quieto do bom mineiro e anunciou que vai buscar uma vaga no time holandês. ''Sei que tenho condições de disputar uma Copa do Mundo'', apontou Gomes. ''Resolvi buscar outros caminhos''.
Mineiro da pequena João Pinheiro, ele fala à FOLHA do sucesso no PSV Eindhoven, onde ficou 1.159 minutos sem levar gols em 2005, da seleção, da vida na Holanda e até da passagem pela Lusinha:
Folha: Quatro temporadas e quatro títulos. Como explicar essa hegemonia?
Gomes: ''É muito bom. A gente tem feito um excelente trabalho aqui. O grupo sempre está mudando, mas mesmo assim a equipe continua jogando em alto nível.
Folha: E essa história de defender a seleção holandesa?Gomes: ''Acho que na seleção brasileira eu não terei mais oportunidades. O Dunga não deixou isso claramente, mas pelo que vejo nas convocações, o pensamento dele está em outros goleiros. Claro que respeito a opinião, mas sei que eu tenho capacidade de disputar uma ou duas Copas do Mundo e vou em busca disso, mesmo que seja pela Holanda.''
Folha: Como surgiu a idéia?
Gomes: ''O Van der Saar vai se aposentar (da seleção) depois da Eurocopa e no meu modo de ver a Holanda tem menos concorrência do que o Brasil. Dá para contar nos dedos os goleiros que têm condições de servir a seleção.''
Folha: Você chegou a ser convocado pelo próprio Dunga. Ele te explicou os motivos por não te chamar mais? Aconteceu algum problema entre vocês?
Gomes: ''Ele nunca me falou nada. Eu participei do início do trabalho dele na seleção, quando tivemos vitórias muito importantes. Mas nunca aconteceu nada com o Dunga nem com o Wendel (preparador de goleiros). O Dunga nunca me deu uma satisfação, nunca falou 'pô, espera seu momento porque os outros estão em momentos melhores'. Resolvi buscar outros caminhos.''
Folha: Você já defendeu a seleção principal e disputou o Pré-Olímpico do Chile, em 2004. Deve encontrar problemas na Fifa para jogar pela Holanda.
Gomes: ''Já dei uma pesquisada e tenho uma chance. Tenho qualidade, mas não estou sendo aproveitado pelo Brasil e tem outra seleção que pode me dar essa oportunidade.''
Folha: A Federação Holandesa está te auxiliando?
Gomes: ''A gente ainda não entrou com nada (pedido para jogar) até porque eu não tenho passaporte holandês ainda. Primeiro vou atrás disso para depois tentar na Fifa e com certeza terei o apoio da federação.''
Folha: Estar no futebol holandês, que não tem tanta expressão como um Italiano, Espanhol ou Inglês, te ofuscou?
Gomes: ''Não. O Vagner Love na Rússia e o Elano na Ucrania foram convocados e o Dunga deixou bem claro, que quem estiver bem vai. Mas eu estou bem e não estou indo.''
Folha: O Milan e o Arsenal queriam contratá-lo. Você foi procurado mesmo ou é boato?
Gomes: ''A mesma coisa que você sabe eu estou sabendo também. Ninguém me procurou. É claro que no final de temporada começam as especulações e com o trabalho que tenho feito aqui vou estar sendo sempre sondado. Pelo que sei o Milan não vai renovar com o Dida e o Arsenal não vai seguir com o Lehmann.''
Folha: Você acha que está na hora de sair ou é cedo?
Gomes: ''Tenho mais cinco anos de contrato. Não sei se é o momento. Tenho que pensar.''
Folha: Como foi a adaptação ao futebol holandês?
Gomes: No começo foi difícil. Fui um pouco rejeitado não só pelos torcedores da Holanda como pela própria imprensa.
Folha: A Holanda sempre teve tradição de bons goleiros.
Gomes: ''Verdade, e isso fez com que a pressão fosse muito grande. Mas quando cheguei, pedi que aguardassem três meses que iria mudar a visão de todo mundo e foi o que aconteceu. Mudei minha maneira de jogar e hoje sou respeitado. ''
Pensou em desistir?
Gomes: ''Nunca. Pelo contrário. Juntei forças para seguir treinando. Goleiro é igual em todo lugar: não pode deixar a bola entrar. Mas aqui eles jogam muito com o pé. O goleiro é essencial para iniciar jogada.''
Folha: Como foi com o idioma e a cultura holandesa?
Gomes: ''Foi difícil. Eu não falava nada, mas muita gente me ajudou. O clima também foi difícil, bem diferente do Brasil. Mas eu tenho comigo que quando você quer uma coisa, nunca vem fácil. Hoje dou valor a tudo o que passei lá atrás.''
Folha: A Holanda tem uma localização privilegiada. Você costuma viajar bastante?Gomes: ''Aqui, estamos praticamente perto de tudo. Perto de Paris, de Milão, de Londres. Quando tenho folga, o que é muito difícil, sempre que posso, procuro viajar para conhecer o máximo possível da Europa.
Folha: Como é o assédio?
Gomes: ''É muito grande, mas com respeito. Eles ficam eufóricos de encontrar a gente, mas te deixam fazer o que estiver fazendo para depois vir pedir um autógrafo, uma foto.
Folha: Você pensa em voltar ao Brasil ou quer aproveitar o bom momento para buscar um time maior na Europa?
Gomes: Eu não estou buscando um clube maior, até porque o PSV, no meu modo de pensar, é um clube muito bem estruturado, tem sua história no futebol, está sempre disputando a Champions League. Mas é claro que a gente pensa em voltar um dia para o Brasil, mas não agora. Tenho esse contrato aqui por mais cinco anos a cumprir, seja no PSV ou em outro clube, então quero ficar e depois pensar se volto.''
Folha: Como faz para matar a saudade do Brasil?
Gomes: Telefone, Internet, assitindo a Globo e a Record. A gente está sempre acompanhando o que se passa no Brasil. Claro que não é a mesma coisa, mas ajuda bastante. E a família está sempre perto também. E eu sempre procuro trazer o máximo de pessoas possível do Brasil para cá e poder amenizar a saudade.
Folha Existe um papo que você teria jogado um tempo na Portuguesa Londrinense quando garoto. Isso é verdade?
Gomes: Joguei na Portuguesa de Londrina, cara. Lembro que durmia no alojamento na própria Portuguesa. Era um beliche e fazia muito frio. Levantava de manhã e estava tudo branco. Foi uma época muito difícil para mim. Estava com 16 anos e era a primeira vez que saía de casa. Foi uma fase bastante difícil, mas que aprendi muito com ela. Gostei muito da cidade. Ia sempre na rodoviária, que fica perto do estádio do Londrina (VGD). Eu ficava mais na rodoviária do que na concentração.
Folha: O que você guarda dos momentos em Londrina?
Gomes: Fiquei um mês apenas, mas foi um aprendizado. Depois que você vai descobrindo as facilidades, você vê que passou dificuldades muito grandes. Você olha para trás e pensa 'puxa, como foi difícil'.
Folha: Reza a lenda que na Portuguesa o cardápio dos jogadores tem como prato principal pé de frango. Você comeu muito disso por lá?
Gomes: (Muitos risos) É verdade. A gente comia bastante frango. Eu não lembro se era pé ou não, mas eu comi muito frango.

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