Ex-lateral influenciou na contratação de Garrincha
Rio - Foi por causa de Nilton Santos que Garrincha se apresentou mais rapidamente ao mundo do futebol. Em 1953, Nilton Santos já era Nilton Santos e Garrincha, apenas Mané. O gênio saiu da lâmpada logo em seu primeiro treino em General Severiano. Como reserva, deixou o lateral titular atônito, sem fôlego, com suas arrancadas e dribles desconcertantes. O cara é um monstro, tem que contratar, foi o que disse Nilton, à época, ainda sob o impacto do malabarismo daquele jovem debutante de pernas tortas.
Garrincha morreu em 20 de janeiro de 1983. A amizade, o respeito e a devoção de Nilton Santos por outro gigante do futebol se perpetuaram. Desde que Garrincha saiu de campo, o lateral passou a homenageá-lo a cada 20 de janeiro, com orações e uma vela acesa. O ritual foi interrompido no ano passado, por causa do Alzheimer.
A memória e o coração, neste caso, se aliaram para não deixar a chama apagar. O Garrincha era um brincalhão, uma pessoa do bem. Teria sido melhor que Pelé? A pergunta, um tanto quanto indelicada, tem uma resposta lúcida e elegante, no estilo Nilton Santos. Como ponta, ele foi o melhor do mundo. O Pelé, na posição dele, também foi o melhor do mundo.
O ex-jogador recebe amigos de seu tempo de Botafogo. Amarildo, Cacá e Adalberto são os mais assíduos. Na clínica, não são apenas os pacientes e funcionários que adulam Nilton Santos. Nos primeiros meses de internação, um gato apelidado de campeão se tornou o seu xodó. O felino surgia todos os dias da mata fechada ao redor do prédio e buscava o colo de seu tutor.
Conta a lenda que o único incidente entre os dois ocorreu por ciúme do gato. Certa vez, um visitante desavisado cumprimentou Nilton Santos com um tapinha nas costas e a saudação de fala, campeão. O gato teria se irritado com a concorrência e arranhou as pernas do dono antes de sair em disparada. A história é relembrada no momento em que Nilton descansa na poltrona do quarto. Ele confirma a versão contada pelo dono da clínica, Paulo Valença, com outro sorriso.
Nilton Santos dispensa a ajuda de enfermeiras para as refeições quando degusta sorvete e o seu doce preferido: a torta Nilton Santos, uma mistura de goiabada e ricota, criada há poucos meses no Café. O restante das atividades de rotina exige a intervenção direta de outras pessoas, em especial de Maria Célia. Ela está de parabéns, é uma guardiã, uma protetora do Nilton para todas as horas, elogiou Paulo Valença, responsável por um desconto generoso no aluguel da suíte - de 40% (o valor total seria de R$ 11 mil por mês, sem contar com os medicamentos e os serviços profissionais). Quase todas as despesas do hóspede são pagas pelo Botafogo, que acaba de lançar uma camisa retrô do próprio Nilton Santos para ajudá-lo.
Conhecido como a Enciclopédia do Futebol, cognome criado pelo locutor Waldir Amaral no Mundial de 1958, Nilton Santos tem, na medida do possível, alguma qualidade de vida. O Alzheimer é degenerativo, mas praticamente estacionou nos últimos meses. Na sua missão diária de se manter alegre e espirituoso, Nilton desafia seu principal adversário com a vontade de seguir em frente e o calor humano de quem o cerca. Eu estou bem, eu me sinto feliz. (S.B./A.E.)





