Se depender da força de vontade de um matogrossense de 55 anos, o Brasil em breve resgatará a tradição do fabuloso Éder Jofre ou do folclórico Maguila e ainda será um grande celeiro de boxeadores. Dalvino Gonçalves, o Pelé, dedica várias horas por dia para ensinar boxe a crianças e jovens carentes da Região Metropolitana de Curitiba.
Morando com o filho Rodrano, de seis anos, num barraco de pouco mais de dois metros quadrados, Pelé construiu um ringue no tereiroa em frente à sua casa no município de Pinhais. Ali, dá aulas para amigos e vizinhos.
Kraw PenasEsperançaCom o filho Rodrano: ‘Esse menino já é um pegador e tanto’Ex-campeão paranaense, Pelé ainda demonstra o mesmo vigor físico de vinte anos atrás, quando disputava campeonatos e nocauteava os adversários. Hoje, a luta de Pelé é pela vida. Desempregado, ele convive com o filho sem nenhum conforto no barraco em Pinhais. Num mesmo cômodo, divide espaço com o frio, alguns ratos e um beliche, onde dorme com o filho.
Vivendo da ajuda de amigos e vizinhos, Pelé só lamenta o furto do seu cavalo, Bingo, ocorrido há dois anos e que lhe tirou a ajuda para carregar o ferro velho que juntava na vizinhança. Mas ele não se abate e já arrumou outra pequena fonte de renda: ‘‘Quando tem jogo aqui no campinho eu vendo umas cervejas para o pessoal’’.
Kraw PenasRecompensaCom a zeladora Marilene: contribuição aos amigos que o ajudam
Quem olha Pelé treinando seus alunos e falando sobre o boxe não imagina o que ele vem passando. Vê apenas o brilho no olhar ao lembrar dos tempos de fama e a vontade em fazer de seus alunos grandes campeões. Ele fala com paixão da arte que não lhe traz tanta nobreza assim. ‘‘O boxe é minha vida e, enquanto eu tiver forças, vou viver para ele’’, diz, com os olhos lacrimejados.
Nesta luta pela sobrevivência, ele lembra de alguns nocautes da vida. A morte por afogamento de um filho no reveillon de 1989, no litoral paranaense, fez com que Pelé revesse sua vida e quase cometesse uma loucura: ‘‘Pensei até em me matar’’, conta. ‘‘Um pai nunca espera a morte de um filho.’’ Anos depois, a alegria voltou com o nascimento do filho caçula, com quem vive até hoje e deposita todas as suas esperanças. ‘‘Ele vai ser um grande boxeador’’, aposta o velho lutador. ‘‘Já é um pegador e tanto’’, orgulha-se.
Kraw PenasAgradecimentoCom o estoquista Carioca: perto do ringue, longe dos crimes
Há dois anos Pelé dá aulas para um grupo de 30 jovens e crianças. Seu trabalho já desviou muita gente da marginalidade para o esporte. É o caso do estoquista Adriano Batista de Camargo, o Carioca. Treinando há um ano com Pelé, Carioca - 19 anos, casado, dois filhos - apresenta-se, nas suas poucas folgas do trabalho, em algumas preliminares de lutas na cidade. Mas até há pouco tempo atrás, vivia na marginalidade. ‘‘Não tinha muito o que fazer e cometia bobagens’’, conta o estoquista.
Hoje ele responde, em liberdade, um processo por furto - e se diz muito feliz longe dos crimes e perto do ringue. ‘‘Eu sou um exemplo de que o trabalho do Pelé dá certo’’, afirma Carioca. ‘‘Mesmo sem estrutura nenhuma, mas com muita boa vontade, o Pelé vem ajudando muita gente por aqui’’, diz o discípulo. ‘‘Tenho muito orgulho dele e de mim também.’’
Pelé não dá aulas só para homens. Há algumas meninas que treinam com ele. A zeladora Marilene dos Santos, 31 anos, casada, três filhos, mesmo se dividindo entre o trabalho e os afazeres de casa, esposa e mãe de família, arruma tempo para treinar boxe três vezes por semana. ‘‘Ele é muito legal, entende de boxe e está ajudando a gente a aprender algo novo’’, diz a zeladora. Marilene conta que ainda pretende lutar numa competição oficial e, por isso, leva a sérios os treinos. ‘‘Esforçada, forte e brigadora’’, assim Pelé resume a sua aluna.
Para Maria de Fátima Cardoso, representante da Federação Paranaense de Boxe na Região Metropolitana de Curitiba, o trabalho de Pelé é ‘‘sensacional’’. Segundo ela, mesmo com a falta de apoio e as precárias condições em que o lutador vive, a intenção e os resultados são muito bons. ‘‘Precisa ver quanta gente vem acompanhar os treinos aqui’’, conta Maria de Fátima. ‘‘Antes, as crianças não tinham muito o que fazer e, quando faziam, era algo errado’’, diz ela. ‘‘ O boxe é palavra de ordem por aqui e Pelé é rei’’, empolga-se. ‘‘A minha filha é um exemplo: ela trabalha, estuda e ainda vem treinar toda semana aqui.’’Kraw PenasJogo limpoPelé com vizinhos no ringue montado em um terreiro em Pinhais: ‘O boxe é minha vida e, enquanto tiver forças, vou viver para ele’
Marcos Freitas

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