Ex-campeã relembra confrontos com a rival Maria Esther Bueno
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terça-feira, 03 de novembro de 1998
Isnard Cordeiro 
Por uma semana Londrina hospedou Ann Jones. Ela veio da Inglaterra, como capitã da equipe de tênis feminino de seu país que disputou as etapas brasileiras - Porto Alegre, Salvador e Londrina - da torneio juvenil da International Tennis Federation (ITF). Cabelo loiro e ralo, passadas tranquilas e muita disposição para uma pessoa na casa dos 60 anos, poucos imaginavam que, por trás dessa pessoa, existe nada mais nada menos do que uma campeã de Wimbledon e tricampeã em Roland Garros.
Em Londrina, Ann falou com muita gente sobre suas cinco garotas, mas a pouquíssimas pessoas sobre o passado de Adrianne Shirley Haydon - seu nome de nascimento de nascimento. No tênis, após seu casamento, ficou conhecida por Ann Jones, como mostra o Tênis Ilustrado, editado em 1987 e que mostra os mones dos grandes campeões do Gran Slam. Foi preciso que um integrante da delegação inglesa dissesse aos organizadores quem foi Ann Jones. Quando a Folha falou que gostaria de falar sobre ela e não suas meninas, se comoveu e, com muita alegria, abriu o jogo. E mostrou dois importantes aspectos: primeiro a importância dela dentro do tênis inglês e, também, sobre a importância que ela e sua equipe deram ao torneio realizado em Londrina, praticamente ignorado pelo público local, mas que reuniu, de terça-feira a sábado da semana passada, 202 tenistas entre 10 e 18 anos de 15 países.
Ann começou meio tarde no tênis. Como meus pais jogavam tênis de mesa, também joguei. Só aos 11 anos, no entanto, é que comecei no tênis. Dos 19 aos 31 anos, minha vida foi na quadra. Parei em 71: com o nascimento da primeira filha, deixei o esporte, contou ela. Apesar de ter iniciado meio tarde, Ann teve tempo de decidir um título juvenil em Wimbledon e foi campeã, em 56. Naquele período, segundo ela própria, estava nascendo uma grande tenista, da qual se lembra muito bem. Era Maria Esther Bueno, do Brasil. Convivi por muito tempo com ela e, quando a enfrentei, perdi. Lembro que quando a Maria Esther venceu em Wimbledon, pela primeira vez, vim com ela para o Brasil e realizamos alguns jogos em São Paulo e Rio de Janeiro. Depois seguimos para alguns jogos em Buenos Aires. A brasileira jogava muito.
Mas Ann Jones também entrou para a história do tênis mundial, ganhando em Wimbledon. Em 67 perdi a final para a norte-americana Billie Jean King, por 6/3 e 6/4. Dois anos depois, em 69, estava outra vez na final, novamente contra Billie Jean King, só que venci por 3/6, 6/3 e 6/2. Foi fantástico, porque ganhar lá é o sonho de qualquer jogadora, disse ela com a alegria de quem parece ter sido campeã um dia antes.
Ann Jones foi campeã também em Roland Garros. Na França consegui chegar em cinco finais. Na primeira, em 61, enfrentei a mexicana Y. Ramirez e ganhei por 6/1 e 6/2. Voltei e ser campeã na França em 66, ganhando da norte-americana Nancy Ann Richey, por 6/3 e 6/1. Em 68 perdi para Nancy e depois, em 69, para a australiana Margaret Court.
Ainda em 69, Ann foi campeã de duplas mistas com Frederick (Fred) Sidney Stolle, superando na final a dupla A. D. Roche/J.A.M. Tegart, por 6/3 e 6/2. Foi um bom ano pra mim. Só lamentei ter perdido aquele ano em Roland Garros, porque, com uma vitória na França, seria completo meu ano, diz.
Ann não gosta de fazer comparações com o passado, mas garante que se tivesse nascido nessa época, estaria ganhando muito dinheiro. É um período diferente, mas acredito que os antigos se adaptariam perfeitamente hoje em dia. Se fomos bons anos atrás, hoje também seríamos, explica. Para ela, a evolução no tênis foi muito grande. Quando jogava, a raquete era de madeira. Lembro que quando apareceu a T. 2000, foi uma revolução. Hoje é diferente e elas mudam praticamente todo dia. A raquete é mais veloz, a bola é infinitamente superior. Há patrocinadores e ninguém tem que se preocupar com nada. O profissionalismo é grande, em todas as áreas do tênis, muito diferente da minha época. Quando viajava, tinha lá uns US$ 200 para custear a alimentação e mais nada.
Ela diz que a parte física hoje é fundamental, e tudo aprimora mais rapidamente o atleta, por isso que hoje em dia os atletas se tornam ídolos com menos idade. O sucesso chega mais cedo. A quantidade de torneio faz com que os jogadores ganhem maturidade rapidamente. Tudo é mesmo muito diferente, o que torna impossível tentar classificar as duas épocas. Jogadores de cada país apresentam personalidades diferentes. Como Borg, Becker e até o brasileiro Guga, analisa.
Aos 60 anos, que ela completou no último dia 17, Ann não joga mais, nem para brincar. Prefiro caminhar com meu cachorro e nadar nas minhas horas de folga, sorri. Mas ela não tem muito tempo. Trabalha na Associação de Tênis da Inglaterra e é membro do Comitê Organizador do Torneio de Wimbledon. Como capitã, está sempre em viagem no exterior, como esteve agora em Londrina.


