O que leva o ser humano a desafiar o impossível? Longas jornadas em terrenos inóspitos, nas geleiras eternas das altas altitudes, onde o vento, a temperatura e a falta de oxigênio tornam a permanência quase insuportável... ''É um jogo! A montanha é o campo para jogar e o cume, a grande taça!'', define o paranaense Gil Piekarz. O grande adversário é a pressão psicológica que insiste, a cada segundo, pela renúncia. A força de vontade que move estes homens nas cristas do Everest, sem dúvida, é heróica. Desistir de continuar jogando é frustrante, um enorme prejuízo pessoal, a não ser que o motivo esteja muito acima do cume da montanha... E foi isso que aconteceu.
Após 68 dias de aclimatação e preparo entre os acampamentos da face norte do Everest, do lado do Tibet, na China, e mais de um ano de planejamento (leia-se intensos treinos e busca pela viabilidade do projeto) a expedição Everest 2001, Cingapura- América Latina, recua frente a maior montanha do mundo, na marca dos 7.900 metros de altitude, a menos de 1000 metros do cume.
O curitibano Gil, único representante do nosso continente na expedição, relata o momento de sua vida: ''De onde me encontrava, o cume parecia estar ao alcance das mãos! Daria para ver uma pessoa lá em cima. Ansiedade e apreensão tomaram conta de mim. Estava perto do topo do mundo. Quando cheguei à ultima barraca do Campo 2, veio o nosso destino: David, chefe da expedição, informava por meio de rádio ao meu colega Rozani a sua situação. Entrara em exaustão física! No momento aceitei como um sinal de Deus, terminava aqui a segurança da equipe. Nós éramos um time e como tal atuamos. Eu estava extremamente cansado e a descida teria que ser com toda a cautela. As pernas bambas teriam que ser controladas passo a passo. Logo de saída escorreguei e levei o meu único tombo - passei rolando pela barraca dos colombianos que assustados vieram me ajudar. Nenhum dano para mim, o que não posso dizer o mesmo para o meu macacão de pluma de ganso...''
Regras do Everest
Para conviver entre pessoas numa região hostil e inabitada por tantos dias, período necessário para aclimatar-se à baixa pressão parcial de oxigênio, a norma é manter o alto astral a qualquer custo. Críticas e mau humor dão lugar a gentilezas e espírito de cooperação. Nos dois principais acampamentos, o Base (5400 msnm) e Avançado (6500 msnm), as equipes de alpinistas montavam em barracas seus ''quartéis generais'': com suportes para comunicação, barracão-refeitório, barraca-depósito e as individuais. Por longos períodos de tempo ruim, os escaladores mal saíam de suas tendas, apenas para as escapadas nas refeições... ''Eu passei a viver um dia por vez, sem pensar no amanhã e concentrando-me nas tarefas diárias'', recorda-se Gil. Ting Sern, o responsável pela comunicação da equipe com o mundo passou as 68 jornadas fixo no Campo Base...
O clima seco e frio do Tibet é cruel e impiedoso. Este explica-se pela enorme barreira dos Himalaias, onde ergue-se o Everest, que não deixam a umidade do Índico passar. Na verdade, a região está em constante atividade geológica. A cordilheira formou-se a partir do choque das placas continentais Indo-australiana, que se desprendeu do (região da África oriental) há 200 milhões de anos, com a placa da Eurásia. A cada ano a muralha cresce um centímetro.
Em busca da verdade
Por uma artimanha do destino, o grupo encontrou-se nos acampamentos com a distinguida Expedição de Pesquisa Mallory & Irvine, da International Mountain Guides, que buscava já em sua segunda tentativa os corpos dos lendários escaladores britânicos, nas ''redondezas'' do cume. Mallory e Irvine foram vistos pela última vez às 12h50 do dia 8 de junho de 1924, na face norte do Monte Everest, a poucas centenas de metros do cume. Horas depois, à noite, o vento e a neve levaram os alpinistas para sempre, transformando-os em mitos: teriam eles atingido o cume, antecipando em quase três décadas o feito de Hillary e Tenzing, até agora tidos como os conquistadores do Everest? Desvendar este mistério consiste na apaixonante missão da expedição americana da International Mountain Guides. Na extenuante busca de 99, eles acharam o corpo de Mallory, porém sem indícios de que haviam estado no cume. A esperança é de que notas e filmes fotográficos se encontrem junto ao corpo de Irvine, foco das buscas deste ano - infelizmente sem sucesso. A procura que seguramente continuará...
Próximas façanhas
Geólogo, alpinista e experiente piloto de parapente, o curitibano Gil Piekarz, 46, coleciona escaladas em alta-montanha e aventuras que deixam qualquer um de queixo caído: ao mixar suas duas paixões esportivas, em 99 ele simplesmente escalou 6.439 metros do pico Illimani, no altiplano boliviano, e se lançou de parapente em meio a um mar de cumes nevados, estabelecendo o record brasileiro de decolagem em altitude - reportagem já publicada neste espaço em agosto de 2000. Seu grande sonho parece estar próximo de ser realizado: decolar do Everest, feito conquistado apenas em 1988, por um voador francês e por um casal, de mesma nacionalidade, num intenso vôo duplo, este ano.
Agradecimentos
Graças ao patrocínio e apoio de 23 empresas, destacando-se as gigantes de Cingapura, Brands, Singapore Press Holding e Singapore Tecnologies, que bancaram os 200 mil dólares de custo da expedição, a aventura realizou-se com completa infra-estrutura. A Expedição Everest 2001, Cingapura - América Latina teve como patrono o ilustríssimo presidente cingapurense, S. R. Natan, e teve como objetivo de estreitar as relações entre a América Latina e este país. Gil agradece a recepção e cordialidade do embaixador do Brasil em Cingapura, Paulo Pinheiro, e à fábrica curitibana de botas esportivas Snake, que o patrocinou com as passagens aéreas.

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