Eurico Miranda por um dia Paulo Briguet De Londrina Cometi um erro na primeira página da Folha, no último domingo. Em chamada para o Caderno de Esportes, este redator que vos fala rebaixou a Portuguesa Londrinense e o Malutrom para a segunda divisão do Campeonato Estadual. O erro saiu na edição que circula em Londrina e cidades vizinhas. O pior é que, naquele santo dia, a Lusinha estreava na divisão de elite do futebol paranaense, à qual só chegou depois de vencer duras batalhas no gramado. Era, por assim dizer, o dia mais importante na história do clube – e o zagueirão aqui, inadvertidamente, quase mandou a festa e a bola para o brejo. (Com o Malutrom também ficou feio, mas pelo menos o time de São José dos Pinhais não debutava na Série A-1.) Claro que os torcedores, jogadores e diretores da Lusinha não ficaram nem um pouco satisfeitos com minha gafe, e logo na primeira página! Apressado com o horário de fechamento do jornal, por uma breve desatenção, sem maldade alguma (tenho a maior simpatia pela Portuguesa), eu acabei agindo como um desses cartolas brasileiros que, de repente, decidem cassar as conquistas de times pequenos. O inferno está cheio de bem-intencionados, portanto não adianta amenizar a terrível verdade: eu fui Eurico Miranda por um dia. Garanto que fiquei mais chateado com erro do que a pequena (mas leal) torcida da Portuguesa. Apressei-me em corrigir o deslize e enfatizar a estréia do time, na edição seguinte, de segunda-feira. Espero tê-lo feito na medida do possível. A mancada com a Portuguesa Londrinense e o Malutrom me levou a pensar em uma atitude fundamental não só para o bom jornalismo, mas para a vida: o reconhecimento de erros. Por divina coincidência, no mesmo domingo em que a Lusinha estreava na primeirona, o papa João Paulo II pediu perdão pelos erros da Igreja Católica cometidos ao longo dos séculos: perseguição a minorias, intolerância, autoritarismo, violência. A Santa Sé deixou bem claro que o arrependimento e as desculpas católicas não querem dizer auto-flagelação, mas sim um exame de consciência com vistas ao futuro. Se até o papa está pedindo desculpas, que dirá um modesto redator? Do Vaticano ao VGD, é preciso que as pessoas tenham a humildade de voltar atrás e corrigir as próprias mancadas. Só assim a gente constrói uma civilização, baseada na experiência humana, e não em arrogâncias individuais. Mas alto lá. Assim como o perdão só existe quando vem junto com o reconhecimento do erro, a admissão de falhas não pode servir como pretexto para justificar a bobagem, a mancada, a gafe, o deslize ou (o que é muito pior) a corrupção, a má-fé, a mentira e os crimes em geral. Se o eslogans ‘Falha nossa’ ou ‘Errar é humano’ se transformassem em álibis para quem erra, estaríamos perdidos. Cada pessoa tem que estar preparada para assumir a gravidade de suas atitudes, numa escala que vai do pequeno deslize involuntário ao crime contra a humanidade. Quem disse que a Lusinha e o Malutrom estão na segunda divisão precisa esclarecer em alto e bom som que eles estão na primeira divisão, ora essa. O repórter que publicou inadvertidamente uma notícia falsa deve se empenhar no desmentido. O político que roubou dinheiro público tem a obrigação de devolvê-lo integralmente, entregar o cargo e, se for o caso, ver o Sol nascer quadrado por um tempo, conforme prevê a lei. A instituição que perseguiu minorias no passado remoto deve oferecer compensação e proteção aos excluídos do presente. O manda-chuva que exterminou cidadãos em regimes ditatoriais (com ou sem razões de Estado) não pode fugir ao julgamento de seus atos. Guardadas as devidas proporções que vão da mancada com a Lusinha ao genocídio, passando pela ladroagem no poder público, é bom a gente lembrar algumas regrinhas simples de vez em quando. O nome disso é ética. Bom, acho que fui claro, não? E por falar em clareza: a Portuguesa Londrinense empatou em 2 a 2 com o rival Malutrom, em jogo válido pela PRIMEIRA DIVISÃO do Campeonato Paranaense 2000, no Estádio VGD, em Londrina. Sei que isso fere a chamada neutralidade jornalística, mas espero que a Lusinha tenha muitos e muitos anos de permanência e glórias na primeira divisão do Paranaense. Até para que eu me acostume com o fato e não tenha que repetir mais uma vez, constrangido: – Falha nossa! - Paulo Briguet é redator da Folha e, por enquanto, persona non grata na Portuguesa Londrinense.

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