Os principais estádios brasileiros teriam que ser demolidos para atenderem às recomendações da Fifa e às normas européias. Reformas, mesmo que profundas, seriam economicamente inviáveis. Essa é uma das conclusões de um estudo realizado pelo arquiteto paulista Carlos de La Corte, que foi sua tese de doutorado. Com mais de mil páginas, o levantamento ''Estádios brasileiros de futebol: uma análise de desempenho técnico, funcional e de gestão'' aponta a situação precária em que se encontram as praças esportivas brasileiras.
Segundo o trabalho aprovado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), as arenas do país estão em desacordo com os requisitos exigidos por instituições como Fifa, Uefa e pelo Green Guide, considerado a Bíblia inglesa de arquitetura esportiva. ''No Brasil, não há normas que direcionem os projetos e modelos de gestão para os estádios. O modelo atual é da década de 60, 70, não tem parâmetro'', apontou De La Corte.
Ele analisou 250 itens, divididos em duas partes. Na primeira, foram feitas avaliações em quesitos como conforto, localização e segurança. No segundo, as condições do edifício, como instalações elétricas, hidráulicas e a estrutura de um modo geral.
O arquiteto visitou e analisou 14 praças esportivas distribuídas por seis países europeus. Esteve em locais como o Allianz Arena, em Munique, na Alemanha, o Santiago Bernabéu, em Madri, e o Camp Nou, em Barcelona. De La Corte além da visita técnica, também entrevistou os administradores de cada um dos estádios.
No Brasil, o comparativo foi feito com Pacaembu, Morumbi, Maracanã e Mineirão. Ele não recebeu autorização do Atlético-PR para analisar a Arena da Baixada. ''Os estádios brasileiros analisados, atendem apenas 43% dos requisitos. Apontam problemas como localização, acesso, conforto, cálculo de capacidade, instalações e serviços, banheiros, alimentações e vestiários'', descreveu o arquiteto, ressaltando que setores como tribunas de imprensa e de autoridades, campo de jogo e espaços de circulação estão entre os pontos mais fortes das arenas.
Diante das avaliações, De La Corte afirma que apenas a demolição completa de arquibancadas, saídas, rampas, coberturas, acessos e remodelação completa de seus projetos, enquadrariam os estádios aos padrões internacionais de qualidade. ''Porém, para satisfazer a Fifa no caso da Copa do Mundo, é possível fazer adaptações de alguns espaços. A Fifa quer que a imprensa e as autoridades fiquem bem e que as pessoas sentem em lugares cobertos, além de estacionamentos'', apontou.
O arquiteto afirmou que o principal problema para modernizar os estádios brasileiros é a viabilidade econômica para a manutenção deles, principalmente após a Copa. ''Quem vai manter, quem vai gerir. Um estádio é diferente de um shopping. O estádio tem que ser multifuncional para ser viável e isso tem que ser pensado desde o início, desde o projeto'', comentou.
Ele ressaltou as transformações nos países europeus como exemplo para o Brasil. ''Dois vetores mudaram os estádios na Europa: as tragédias e os eventos, como Olímpiada, Eurocopa e Copa do Mundo. Tudo isso gera demanda da mudança. Tivemos a tragédia no Brasil (acidente ocorrido na Fonte Nova, em Salvador, no ano passado) e vamos ter a Copa'', lembrou, propondo uma reflexão ao mundo futebolístico nacional. ''Vamos construir mais elefantes brancos ou vamos mudar. Estou preocupado, porque não vejo um comitê, uma legislação específica''.

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