Agência Estado
De Winnipeg, Canadá
O estudante brasileiro Arthur Lopes Ferraz Tella foi obrigado a explicar a seus colegas canadenses na aula de história, em Portage La Prairie, que não vivia com cobras e jacarés nas ruas de São Paulo. Paula Santos, em Winnipeg, surpreendeu a classe ao mostrar um vídeo de Recife. ‘‘Eles ficaram impressionados porque temos prédios por lᒒ, contou, rindo.
Depois de esclarecer inúmeras vezes na rua, ou mesmo nos locais de competição dos 13º Jogos Pan-Americanos, que no seu País se fala português - não espanhol - o brasileiro corre o sério risco de perder a paciência. Mas a dos intercambistas no Canadá é levada ao extremo. ‘‘Fiquei furiosa quando disseram na minha classe que a capital brasileira era Buenos Aires’’, reclamou Midália Almeida Campana.
Desconhecer o Brasil não é exclusividade canadense, assim como a recíproca também deve ser verdadeira. Aliás, segundo Tella, Paula, Midália e as colegas Carolina Andrade e Fabiana Baldissera, todos entre 17 e 18 anos, uma das experiências mais valiosas do intercâmbio estudantil no Canadá foi entender melhor a própria origem. ‘‘Não sabia que São Paulo tinha 17 milhões de habitantes’’, reconheceu Tella. ‘‘Antes eu não dava a mínima para o Brasil’’, contou Carolina. ‘‘Agora me sinto totalmente patriota.’’ Foi animado por esse espírito que o grupo torceu pelo Brasil nos jogos Pan-Americanos.
Nenhum dos estudantes tem apreço especial pelo esporte, no que diferem muito dos canadenses. ‘‘Aqui todo mundo dá muito valor a isso’’, afirmou Fabiana. ‘‘Todas as grandes empresas patrocinam alguma modalidade e as empresas menores mantêm seus próprios times, mesmo que não seja para competir.’’ Educação física é tida como a melhor matéria na escola para se fazer amigos. Como nada é sempre tão propício para isso quanto as aulas de educação física, as amizades às vezes são difícieis. ‘‘Conseguimos amigos para a vida inteira, mas a maioria não é do Canadᒒ, disse Midália. ‘‘São pessoas na mesma situação de intercâmbio; do Brasil ou de outros países.’’
O choque entre as culturas provoca situações curiosas. ‘‘É como se eles nos achassem esquisitos, são muito mais frios do que a gente’’, explicou Carolina.
É certo que todos voltam muito diferentes para o País. Visivelmente mais gordos, porém satisfeitos. Tella calcula ter ganho 11 quilos; Paula, 5 quilos, mas promoveu mudanças mais radicais. Fez três piercings, na orelha e no umbigo. Outra da turma furou o umbigo, mas preferiu não surpreender os pais antes da volta.

mockup