'Estávamos desesperados por parceria'
Folha Quem apresentou os empresários Ciro Rios e Roberto Campi ao senhor?
Guergoletto O Londrina falou muito em parceria durante o Pré-Olímpico e a notícia correu no Brasil todo. Então, eles nos procuraram. Quando eles chegaram, fomos ouvi-los. Primeiro porque estávamos desesperados para arrumar um parceiro em função de que não tinha mais recursos. Eu já havia dito que estava saindo em função da minha campanha política, tanto é que se tivesse dado certo seria a melhor coisa para mim. Mas não deu. A gente esperava não um primor de parceria, mas o time numa posição intermediária e não o vexame que foi dado. O time sem médico, eu até comecei a cobrar isso, um time com treinador improvisado logo que saiu o Valter Ferreira, um time sem medicamento. Não sou profissional e toquei o time três anos de forma amadorística, mas nunca deixei jogador passar necessidade. No Paranaense, chegamos a concentrar no Hotel Crystal. No Brasileiro, eles tocaram de forma superamadora. Agora, restam dois caminhos. Os empresários locais assumirem o time ou eles vêm aqui na segunda ou terça-feira com uma solução para se pagar tudo através da Brasplam empresa que trabalha no ramo de dívida tributária e fiscal. Curiosamente, descobri que essa empresa é a mesma que o Edson Barbosa Lemes (presidente da AFML) estava negociando em janeiro para quitar toda a dívida do Londrina.
Folha E por que não deu certo?
Guergoletto Não é que não deu certo. Eles ficaram de vir fazer um levantamento na época e não vieram. Agora, eles têm uma pessoa levantando todos os dados.
Folha Qual a relação dos empresários Ciros Rios e Roberto Campi com a Brasplam?
Guergoletto Eles são amigos, mas isso não quer dizer que eles tenham qualquer ligação. Acho, na condição de torcedor, que se eles vierem aqui e quitarem tudo através da Brasplam e ter uma garantia de investimento na ordem de R$ 100 mil por mês, tudo bem. Não é continuar com essa parceira, mas refazer o contrato, de forma que os conselheiros saibam onde serão investidos os R$ 100 mil, com quem, qual a formação da equipe e com total liberdade de o Londrina dirigir junto.
Folha Então, os empresários continuariam no Londrina?
Guergoletto Não diria eles. Quem a Brasplam mandar. Uma coisa é você tocar futebol com dinheiro.
Folha O senhor vê algum empresário local com vontade de assumir o Londrina?
Guergoletto Nenhum. A não ser que se pegue um empresário que acredite no Londrina. Se você não quitar a dívida não há como tocar o Londrina. Você tem penhora, tem jogador que quer receber se não não joga.
Folha E qual é o total das dívidas do Londrina?
Guergoeltto O Londrina tem uma dívida trabalhista na ordem de R$ 1 milhão, mais R$ 2 milhões referentes à dívida tributária e fiscal e entre credores, fornecedores e jogadores em torno de R$ 600 mil. Sem contar o último campeonato. Não é muito. Se juntar dez empresários da cidade que acreditassem no Londrina e no clube e abrissem uma S/A de capital aberto, muito provavelmente eles arrecadariam R$ 10 milhões em seis meses. Se não zerar a dívida, não acredito que alguém possa investir no Londrina. Hoje, o clube não tem crédito em lugar nenhum, nem para comer.
Folha Então, o Londrina não tem solução?
Guergoletto O Londrina tem um elenco de aproximadamente 80 jogadores das categorias de base que já poderiam vir de cara para essas pessoas pagarem as dívidas. Para cada atleta vendido, 30% seriam repassados ao clube. O Londrina tem uma torcida fanática e numerosa. Se você formar um time competitivo, você bota vinte mil pessoas por jogo no estádio. O exemplo é o time do Paranaense de 1976, com o Carlos Alberto Garcia e o Marco Antônio. O Londrina tem um grande patrimônio que é a torcida.
Folha O Londrina é viável, então?
Guergoletto Não com esses parceiros que vieram aí. Juntou o paupérrimo com o miserável, vamos dizer assim. A história das parcerias no Brasil não é recente. O Palmeiras não teve decadência, quando a Parmalat largou. O Corinthians, o Flamengo têm uma dívida tributária na ordem de R$ 100 milhões. Esse aí não é um privilégio do Londrina. O Atlético Mineiro saldou isso aí através da parceira. O problema do Londrina é desse tamanho. Quanto devem Atlético e Coritiba? Londrina é um clube viável e uma cidade viável, infelizmente não temos profissionalismo. Vamos ter reunião do Conselho na quarta-feira, quero saber qual vai ser a sugestão dos conselheiros.
Folha Mesmo afastado do clube, o senhor pretende resolver o impasse com os empresários que ameaçam ir à Fifa contra o Londrina por quebra de contrato?
Guergoletto Isso aí acho uma verdadeira piada. Falar em levar um contrato para a Fifa, um contrato que eles não cumpriram... Nós também não cumprimos em função de que eu tive uma promessa e que também não honraram. Me reuni com o presidente da Sercomtel, com o prefeito. Ninguém honrou nada.
Folha Qual era a verba prometida pela Sercomtel?
Guergoletto Era de R$ 30 mil. Só que é um capítulo passado. Dois meses depois, eles abriam mão disso e disseram que iam tocar sem isso (R$ 30 mil que o clube deveria repassar mensamente até janeiro de 2001). Nós também tivemos prejuízos. Eu tinha mil ingressos por jogo, eu abri mão disso aí. Eles montaram o time antes de vencer os R$ 30 mil, se eu tivesse dado o dinheiro estaria mais arrependido ainda. Esse dinheiro, com certeza, não seria investido no Londrina.
Folha O senhor pretende participar desse impasse com os empresários?
Guergoletto Claro que vou participar, mesmo porque tem minha assinatura como testemunha.
Folha O que senhor pretende dizer aos empresários?
Guergoletto Se eles não vierem com nada na segunda-feira, vou aconselhá-los a ir embora da cidade. Abondonem a cidade e vão ver o que fazer em relação aos jogadores.
Folha Caso o clube tenha mesmo que pagar o valor devido no contrato, o senhor vai ajudar?
Guergoletto Eu admiro muito eles terem a coragem de dizer que o Londrina ainda deve para eles. Acho uma cara de pau impressionante. Eles não cumpriram nada do contrato também. O contrato previa a montagem de uma equipe competitiva, dentro das tradições do Londrina. Eu não pude usufruir de mil ingressos por jogo porque dava 300 pessoas no estádio, não tinha médico, não tinha remédio, não tinha concentração. Não cumpriram coisíssima nenhuma do que foi estabelecido e, por conseguinte, não têm moral para cobrar absolutamente nada.
Folha E as dívidas pendentes, como ficariam?
Guergoletto Eles têm dívidas com os jogadores, só que não têm assinatura de nenhum dirigente do Londrina. Nós podemos ganhar isso na Justiça. No contrato de parceria, fala que os responsáveis pelo pagamento são eles.
Folha O Ministério Público chegou a contestar um repasse de verba pública para o Londrina. O caso foi solucionado e explicado devidamente? Como o senhor vê o auxílio do poder público ao futebol profissional?
Guergoletto Foi uma verba de R$ 50 mil da Comurb repassada na conta conjunta minha e do Zé Café. Nós prestamos conta. O dinheiro veio de um roubo, de uma licitação fraudulenta e nós não sabíamos. Mostrei toda a documentação, esclareci os detalhes da contabilidade do Londrina ao promotor Cláudio Esteves. O que importa é que nós usamos honestamente o dinheiro.
Folha O que o próximo prefeito e os vereadores poderiam fazer em prol do Londrina, que não seja o repasse de dinheiro público?
Guergoletto Muita coisa. Eu era um parlamentar que defendia o Londrina e lutava pelas coisas do Londrina. Recentemente, prorroguei a concessão do VGD por mais 10 anos, viabilizei R$ 12 mil para as categorias de base do clube através da Lei do Incentivo ao Esporte Amador e solicitei a troca de todo o alambrado do VGD. Sempre lutei pelo Londrina. O poder público, o novo prefeito e a Câmara podem ajudar o Londrina. O vereador e o prefeito têm como ajudar o Londrina com a sua influência.





