''Que saudade da velha e grande Associação Esportiva Jacarezinho. Nós que somos antigos temos muita saudade''. Esse é o sentimento do aposentado Antônio Palhares, 66 anos, e da grande maioria dos torcedores do clube, que puderam acompanhar o período de ouro do time nos anos 50.
Bons jogadores, estádios cheios e grandes times do futebol paranaense e nacional em campo. Há muito tempo o torcedor jacarezinhense não sabe o que é isso. Os mais jovens, então, só sabem o que os pais e avós contam. Essas palavras são lembranças de um passado glorioso que fizeram da Esportiva uma das grandes equipes paranaenses na metade do século passado.
Vice-campeã estadual por duas vezes, a Esportiva foi uma das grandes forças do Paraná. A equipe foi fundada em 1938 por um grupo de fazendeiros. Nos registros oficiais das atas do clube, consta que a primeira partida foi disputada contra o Atlético Assisense, seis meses após a fundação. A Esportiva venceu o time de Assis (SP) por 4 a 3.
Um mês depois, fez seu segundo jogo, com a equipe que se tornaria sua principal rival: Cambaraense. ''Nossa! Era muito feia a rivalidade. Quando os dois times estavam em campo o 'pau comia'. O alambrado do Estádio Pedro Vilela era feito de balaústre e o pessoal arrancava elas e partia para a briga com os torcedores de Cambará'', revela o atual vice-presidente do clube, Felipe Palhares, irmão do aposentado Antônio. Os dois eram filhos de um ex-diretor da Esportiva e, por isso, acompanhavam de perto a trajetória do clube.
O ano de 1951 foi o início do sucesso do time de Jacarezinho. Numa campanha surpreendente a Esportiva chegou à final do Campeonato Paranaense contra o Coritiba, fato raro para um time do interior até então apenas Operário (29 e 38) e Guarani (31), ambos de Ponta Grossa, em 1931, haviam chegado às finais, mas sem sucesso. Foi a primeira vez que um time do Norte do Estado decidiu o campeonato.
Dono do melhor ataque da competição, com 49 gols marcados, o time de Jacarezinho era a sensação, aplicando várias goleadas, como o hitórico 5 a 1 sobre o Atlético, em Curitiba. ''Eu não me esqueço desse jogo. O Amarelinho marcou 1 a 0 para a Esportiva e os jogadores do Atlético reclamaram de impedimento. Teve uma briga. A torcida invadiu o campo e foi um rolo'', rememora Antônio, torcedor fanático, que não perdia um jogo.
No primeiro jogo das finais, o time do Norte Pioneiro venceu por 1 a 0, em Jacarezinho. O resultado empolgou os torcedores da cidade que organizaram uma ''excursão'' para assistir à segunda partida na capital. Cerca de 1,5 mil jacarezinhenses enfrentaram 23 horas de viagem de trem até Curitiba para apoiar o time. ''Desfilamos nas ruas com bonés e camisas da Esportiva. Foi muito bonito'', relembra, emocionado, Antônio.
Para tristeza dele e de toda a torcida, a Esportiva foi goleada por 5 a 2, perdendo o título. De consolo ficou a artilharia da competição, com o atacante Amarelinho, com 15 gols, que a dividiu com Cézar Frizio, do Água Verde.
O pessoal que acompanhava o futebol daquele tempo conta que por mais competitivos que os clubes do interior fossem, era praticamente impossível derrotar os times da capital em decisões. Segundo jogadores, torcedores e dirigentes, o futebol curitibano tinha muito poder dentro da Federação Paranaense de Futebol (FPF). ''Tinham três ou quatro árbitros muito bons, mas o resto era fraco. Não enfiavam a mão e roubavam descaradamente, mas tanto o Clube Atlético Monte Alevre (Cama) como nós sofriámos com as arbitragens e éramos prejudicados'', critica o ex-meia Hugo Manoel Corrêa, 74 anos, um dos destaques daquele time e que hoje é detetive aposentado em Jacarezinho.
O time de 51 era forte e contava com alguns jogadores vindos de clubes da capital paulista, como é o caso do próprio Hugo, que veio, junto com o irmão e volante Oscar, da Portuguesa de Desportos, no final de 50.
Três anos depois, novamente a Esportiva chegou à decisão do Campeonato Paranaense. Mas outra vez estava em seu caminho o Coritiba. O time de Jacarezinho manteve a base de 51, mas com alguns reforços. E fez uma boa campanha durante a fase de classificação. O primeiro jogo das finais foi no Norte Pioneiro e o Coxa venceu por 2 a 0. No segundo jogo, na capital, a Esportiva bem que tentou, mas não conseguiu superar o alviverde e perdeu por 3 a 1.
Depois dessa nova decepção, o time foi desfeito. Em 56, a diretoria pediu licença na Federação. Quando voltou, ainda mostrou que podia alcançar o triunfo estadual. Em 61, foi campeão do Norte Velho Paranaense e foi para a decisão do campeoanto com o Comercial, de Cornélio Procópio (campeão do Norte), e Operário, de Ponta Grossa (campeão do sul). Mas a equipe decepcionou e ficou com a terceira colocação. Neste triangular o time levou uma das maiores goleadas de sua história: 8 a 1 para o Operário. ''Infelizemente não conseguimos ser campeões, mas o título do Norte Velho já foi uma conquista'', afirma o ex-zagueiro e hoje dentista Luiz Leali de Andrade.

mockup